7/20/2005

Un Certain Je Ne Sais Quoi*














H. Cartier-Bresson - Paris

Há qualquer coisa nas pessoas felizes. Dizem-me que não têm história. As pessoas felizes. Mas há qualquer coisa nas pessoas felizes. Que as torna tão atraentemente interessantes. Um 'não sei o quê'. Mas até sei. As pessoas felizes fazem-me sorrir. Sempre. É disso que gosto nas pessoas. Principalmente disso, quero dizer. Do facto de me fazerem sorrir. Por vezes são os peões a quem cedo passagem nas passadeiras... alguns têm um ar tão feliz quando me acenam um agradecimento. E lá sigo viagem. Feliz também. Outras vezes são as pessoas nas lojas. Tratam-me tão bem por estarem felizes. E lá vou eu. Feliz também. Outras vezes é uma carta de um amigo. Está tão feliz. Que a única coisa que posso fazer é sorrir. Outras vezes ainda são os pares de namorados que se cruzam comigo na rua, nas esplanadas, nos restaurantes, nos cinemas. Estão tão felizes. E eu sorrio. Nunca tinha reparado bem nisto. De sorrir a propósito da felicidade dos outros. Um dia destes alguém que passou por mim na rua, sem que eu o visse, disse-me depois que tinha ficado a olhar para mim embasbacado. Eu tinha parado numa passadeira. Passaram dois peões de mão dada. Felizes. Um deles acenou-me em agrdecimento. Eu abri o sorriso. A pessoa que me viu, de fora, disse-me... 'sorriste e estavas tão bonita, sabes?'
Talvez eu seja uma destas pessoas. Felizes.

* Biréli Lagrène – Gipsy Project (3:25 ) in ‘Move’

5 comments:

Rui said...

Isto está tão bonito, Elisa, que até me custa um pouco divergir. Só que acho a realidade ainda mais bonita.
E, quanto a mim, a realidade é não haver quase ninguém feliz. O que há é pessoas aliviadas e gratas pelo bem que lhes acontece. E eu vejo tu seres uma das que fazes esse bem acontecer.
Ora, se calhar, estou a pensar que não, mas esta é bem capaz de ser uma das faces da felicidade, não achas?

Elisa said...

Rui
Olá e obrigada pela visita.
A ideia da felicidade 24 horas por dia é, dizia o Virgílio Ferreira, tão absurda como a ideia de deus. Ok. De acordo. Há momentos de felicidade e isso que dizes... pessoas aliviadas pelo bem que lhes acontece e que pensam pouco (ou pelo menos não se fixam nisso eternamente) no mal que lhes acontece. A ideia de uma felicidade absoluta é uma estupidez até. Mas a ideia de um certo bem estar apesar de tudo talvez o não seja tanto.

Elisa said...

Uma 'mão' que gostaria de considerar amiga, mas whatever, disse-me jocosamente que o vErgílio daria saltos na tumba. Não me parece caso para tanto, um desleixozito. Mas a errata fica: Vergílio. O resto é tão de mau gosto vindo de ti que o apaguei, bem como às minhas respostas.

Rui said...

Elisa, nem preciso de te dizer para não ligares a essa "mão", que ela nada sabe de Vergílio Ferreira. Tu sabes, e eu sei, que ele era um homem que, apesar de dar uma primeira impressão de fechamento e severidade, se enternecia profundamente à mínima expressão de adesão à sua Arte por parte dos seus leitores. Isto é que era o fundamental para ele, não como se escrevia o seu nome!
Já agora: V. F. é a referência da minha vida como escritor. Se tiveres paciência em ir ao meu blog "onde mudar" lá verás alguns dos porquês (vê também o post d'o escritor famoso).
E o teu comentário melhora claramente a minha ideia, obrigado.

Elisa said...

Rui
tenho (tive, terei) paciência para ir ao(s) teu(s) blog(s).
Quanto à 'mão'... sim, tens razão quando me dizes que não lhe ligue. Não sei se terás quanto ao resto. Sabemos todos alguma coisa do que gostamos, mesmo que seja só a razão porque gostamos e ela seja só nossa.
A ideia do escritor famoso foi genial! E o teu texto está belíssimo. Tenho de ler os outros e, talvez, votar.
Boa tarde. Obrigada.