
Descubro dentro de um caderno de apontamentos (e que apontava eu, nessa época, de tão diferente, do que hoje aponto?) o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, foram importantes. Reconheço-o como quem recupera a evidência do amor que teve. Dentro do caderno a carta. Sob o último malmequer amarelo de todos os malmequeres que, alguma vez, me deste. Dentro da carta o desenho. Dentro da carta o silêncio que as palavras pesadas encerram. Dentro da carta e do desenho e do silêncio das palavras. Eu. O asteroide. A estrela cadente. O castanheiro. A raposinha. Eu. E a voz com que me lias, para eu adormecer, a passagem em que a raposa explica ao pequeno princípe o que é cativar. Dentro da carta e do desenho e das palavras agora abandonadas. Um pouco tristes. Agora. A tua voz quando me interrompias a vida, para me anunciar, digamos, coisas tão subitamente urgentes como: já reparaste que os castanheiros estão em flor, meu amor? E eu não. Claro. Eu não tinha reparado na urgência com que florescem os castanheiros. Porque ninguém me havia feito notar que todos os castanheiros ao florescer era por mim que o faziam. Dentro da carta a tua voz. Raposinha. E as areias do deserto. O deserto para onde lançaste um frágil barco. E o profundo azul do mar para onde lançaste as dúvidas de me teres e não me teres. E de onde tiraste todos os malmequeres amarelos, incluindo este, que acompanharam todos os momentos em que as nossas mãos, cheias um do outro, se encheram mais. Todos os instantes em que o universo descansou nos nossos corpos. Todos os momentos em que a perfeição nos visitou. Depois de eu ter atirado o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, me importaram, para dentro do caderno onde apontava a respiração. Assombraste-me outra vez com a vastidão do teu amor. Apesar do malmequer seco. Dentro dos apontamentos. Acho que nunca te disse obrigada. Nunca fechei o caderno. Nunca rasguei a carta. Nem o desenho. Nunca acabei de te esquecer. E hoje. Faço-o. Hoje regresso ao deserto. De outras areias. Regresso ao profundo azul. De um outro mar.
* Chico Hamilton Quintet (6:30) in 'The West Coast Jazz Box, an Anthology of California Jazz'