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6/29/2009

What a Wonderful World*







Cy Twombly - Poems to the sea


Quatro anos**. de bebedeiras. de jazz. de lúcida melancolia. Obrigada.

* Louis Armstrong (3:22) in 'What a Wonderful World'


** entretanto algumas ligações musicais deixaram de funcionar. Ficam os títulos, é menos a bebedeira.

12/19/2007

White Christmas*




















Joan Miró - Estrella Azul



Desejo a todos e a todas umas óptimas festas.
Que 2008 seja um ano cheio. De sucessos pessoais e profissionais. De paz. De alegria. De bom humor. E da beleza que ainda anda pelo mundo.
Um abraço



* Louis Armstrong (2:39) in '20th Century Masters - The Christmas Collection: The Best of Louis Armstrong'

7/16/2007

Hello Dolly*
















O meu boneco, imensamente favorecido - por João Tavares







Se eu fosse um desenho animado, era certamente uma figura simpática como esta. Só faria coisas boas. Nunca me arrependeria de nada. Teria um ganchinho permanente a segurar-me a franja e um jornal debaixo do braço, onde se leriam apenas notícias extraordinárias. Se eu fosse um boneco animado a minha vida seria mais verdadeira. E eu muito melhor pessoa. Pelo menos, não teria medo.


* Louis Armstrong (2:27) in 'Hello Dolly'

6/18/2007

Dream a Little Dream of Me*














Pablo Picasso - Mulher de Cabelos Amarelos


Um pequeno desejo. Um vagaroso sonho. Gosto de pensar neste lugar como um lugar onde a mansidão que há em todas as coisas belas se concentra. Um lugar de sentidos**.

* Ella Fitzgerald & Louis Armstrong (3:07) in 'Ella Fitzgerald and Louis Armstrong for Lovers'

** Assim se iniciam as comemorações dos dois anos deste blog. Até 29/6 haverá mais música, mais quadros. Mais sentidos.

7/09/2005

We Have all the Time in the World*












We have all the time in the world com Louis.

Nos anos vinte-trinta os “gatos” de Chicago acorriam à janela quando chovia, sob pretexto de apanharem gripe na voz. A ideia metaforizada é mais ou menos esta, é de Earl Hines e explica bem o sucesso do ‘reverendo Satchmo’.
A intenção, sublime, era nada simples: procurar chegar perto do timbre de voz de Armstrong. A inconfundível e esgarçada rouquidão, quase rota, quase terra, do preto Louis.
Estou no rol dos românticos da banheira: canto com a água (a água é suor caindo-me da emoção) e faço do chuveiro micro.
Se me apanho ao volante transformo o trânsito numa tournée a solo estrada fora, tenho a voz de quantas vozes vou ouvindo; ao volante aquelas vozes são a minha.
Ouço quase tudo e tudo é insecavelmente pouco.
E canto muito e canto-me muitas vezes com Armstrong.
(Sou preta numa plantação sulista e sonho-me livre porque o Armstrong suplica, na voz dos seus olhos, a minha liberdade)
Gosto de quase tudo e quase tudo é inesgotavelmente pouco.
É jazz que a Elisa pede e eu não sei bem se é jazz o preto Louis.
Sei que me parece molhado da miúda chuva dos anos gangsters do preto Louis. Sei que é de todas as cores a noite preta do Louis. Sei que é de luz aquela noite. Sei que é branca a sombra do trompete beijado pelo Louis. Sei que geme dor o trompete do Louis quando nos registos altos só ele é capaz de ultrapassar as dores mais agudas
(o céu mais infinito).
Mais duas notas e julgamo-nos no Paraíso. Só mais dois passos e um arrepio.
Só mais um pouco e choramos cada nota.
Lembro-me do pai e do carro mais adiante e o Louis a sair do carro, a vir ter connosco enquanto a pesca resultava, pela tarde inteira, na perfeição… sem peixes nas canas.
Aqueles momentos eram o intermitente cair de folhas na orla do rio, o silêncio perfeito das fiadas elegantes da água de rio, sei que eu e o pai nos sorríamos porque o Mundo ali,
nós os três
era Maravilhoso,
(When you’re smilin’ the whole world smiles with you)
Armstrong saindo e entrando das colunas de som do carro, nós e o rio indissociáveis, amando(-nos), descansando os ponteiros na berma do rio, deixando os minutos afogar-se nas horas… e as horas uma brincadeira de peixes ao longo do rio…
Era assim, Moon River e nós…
Um licor muito forte, Elisa, uma bebedeira permanente, um riso alegre como num filme que nos faz chorar…
O Louis é a minha escolha porque do Louis eu conheço e sinto uma estranha esmagadora saudade.
Ouvi-lo é sentir saudades dele e não saber explicar porque as sinto.
Como se o tivesse conhecido, como se o tivesse tocado, como se daquele trompete saísse todo o tempo do mundo (apenas) para o amor.
E saísse, todo ele, dentro de uma nota que apenas Louis é capaz de erguer do colo, apagar-lhe o tempo, mantê-la lá muito em cima, prestes a chorar… Porque Louis, como alguém soube bem dizê-lo: “é uma nota de dor”, Elisa.
Foi John Barry que ‘me apresentou’ o ‘meu’ Louis de sempre
(no seu último tema à voz, já sem trompete)
Louis cantou para Barry todo o tempo do mundo só para o amor, nada mais…
De tal forma musicada por Barry, a letra amorosa nos lábios de Louis faz-nos acreditar que não precisamos de mais nada depois dela. Que depois de tudo, e mesmo para além do amor, resta sempre o (amor de) Louis.
Louis Armstrong é a iluminação da penumbra, as noites acesas, as escovas do carro num compasso lento afastando as gotas da chuva, o dia a tombar e muito trânsito lá fora de regresso a casa, fachadas de prédios forradas a tijolo num bairro sossegado, a gabardina encharcada de um homem que atravessa a rua a correr e parece já enxuta quando entra num jazz-bar, um guarda-chuva a desaparecer ao fundo da rua, primeiros candeeiros a acender dentro das casas, a chuva a engrossar, carros atravessando pontes, outros cruzando com estes por baixo delas, árvores coreografando ondulação ao som de Armstrong, e algures numa das casas
(faz de conta)
Lucille e Louis com a gargalhada aberta apagando horas de aniversário num sopro que nos canta, nos toca, assim:
We have all the time in the world just for love, nothing more, nothing less, only love…

Quando Louis, muito doente já, disse a Arvell, o longo elemento da banda:
_
Arvell, há quanto tempo estás comigo?
Por todos esses anos, por ti e por todos os elementos da banda, chego ao fim. Não consigo continuar.
Mal sabia que tinha acabado de projectar o início do último e cumprido contrato de 3 semanas.
A partir dali nunca mais parou, apesar de ter morrido 7 semanas depois, com 70 anos apenas.
Porque depois de ti Only You
Only you Louis Armstrong.

Texto de Sandra Costa

*Louis Armstrong (3:15) in John Barry - 'Her Majesty's Secret Service Soundtrack'