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2/11/2007

Con Alma*



















Pablo Picasso - Madre


Finalmente as mulheres em Portugal vão deixar de ser criminalizadas por um acto que já é, em si mesmo, difícil e penalizador. Ninguém mais as julgará em tribunal. Ninguém mais as condenará à prisão. E por isso, hoje, os meus pensamentos são contentes.

*Chano Domínguez (5:30) in 'Con Alma'

10/18/2006

Speak Low*






Henri Matisse - La Nageuse dans l'Aquarium, quadro XII da série Jazz


Fala-me baixo. De dentro da caixa. No meio da água. Que o sangue mancha. Não te ouço. Fala-me. Mais. Baixo. Mas não deixes de falar. Como se eu te pudesse ouvir. Dentro do sangue. Que a água mancha. Sou um mergulhador solitário. Como todos. As profundezas do sangue deixam-nos sós. Tão sós como quando estamos fora da água. Fala-me baixo. E devagar. Como se pudesses estancar a água. Como se pudesses transferir todo o sangue que foi gasto a viver muito devagar. Com muita pressa. Fala-me baixo. Enquanto eu mergulho mais. Enquanto dou umas voltas mais dentro da caixa. Como se fosse à vida. Enquanto subo para respirar. Fora do sangue. Enquanto abro a boca, para te ouvir. Falar(me) baixo. Antes de regressar à água que o sangue mancha. Dentro da caixa. Que. Às vezes. Se parece com a vida.

* Chano Domínguez (6:18) in 'Con Alma'

9/26/2006

It's All In The Game*














Grafitti numa parede de Portalegre, Agosto de 2006


Diz-me o Carlos que eu sou capaz de dizer seis (mais seis?) coisas sobre mim. Duvido que saiba seis (mais seis?) coisas sobre mim. Ou mesmo que essas seis (mais seis?) coisas sobre mim sejam verdade. Eu sou uma mentira que fala sempre verdade (era Cocteau quem dizia isto?). As verdades são sempre duras...it's all in the game:

1. Gosto de fumar. Muito. Talvez seja certo que morrerei de cancro. E eu tenho medo de morrer. Mas acendo um cigarro e mesmo as coisas que sei de mim me parecem mais suportáveis e por isso sigo Fumando*


* Chano Domínguez (4:03) in 'Iman'

2. Às vezes apaixono-me violentamente pelas pessoas, ainda que, em geral, não goste muito delas. É um pouco triste esta coisa que sei de mim, mas sim I Fall In Love Too Easily (I Fall in Love Too Fast)*


* Chet Baker (3:18) in 'My Funny Valentine'

3. Diz Enrique Vila-Matas quando viajas só, o estranho és sempre tu. Ainda assim estranhamente, gosto muito de viajar. Sózinha. Ou seja, Travelin' All Alone*


* Billie Holiday (2:15) in 'Lady Day'

4. Eu tenho a mania que sou grande, mas na verdade sou muito pequena. E com tendência para a melancolia. Basicamente uma Little Girl Blue*


* Diana Krall (5:38) in 'From This Moment On'

ou (como sempre)

* em versão Nina Simone (4:12 ) in 'Little Girl Blue'

5. Embora às vezes diga nunca mais, eu olho para as coisas a seguir como se fosse sempre a primeira vez e sim, acredito sempre que This Could Be The Start Of Something*


*Oscar Peterson (4:43) in 'Night Train'

6. Eu tenho medo. Mas digo sempre que não. Medo de morrer. Por exemplo. E então eu canto. Canto só para saber que ainda estou viva... ou numa muito melhor versão I Sing Just to Know I Am Alive*


* Nina Simone (1:12 ) in 'My Baby Just Cares for Me'

Em suma, sei seis (mais seis) coisas sobre mim. Sei por exemplo (embora não possa por aqui a música) que Mon coeur est rouge (Keith Jarrett, digamos... em Nápoles, em 1996). E acho que sabendo isso nem seria preciso saber mais nada. Mas (mais) seis coisas são sempre um bom pretexto para ouvir (mais) música.

E agora BlahBlah e tu? TalvezMeEscrevas seis coisas sobre ti?

E agora Luís e tu? Seis coisas da tua Natureza do Mal?


* Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Gary Peacock (6:47 ) in 'The-Out-of-Towners

7/07/2006

Alegria Callada*














Sebastião Salgado - San Juan, 1979


Hoje tenho sete anos. Ainda sinto as mãos da minha mãe a entrançar os meus cabelos. Hoje tenho sete anos e borboletas na barriga. Borboletas iguais, nas cores, aos laços que a minha mãe me põe na ponta das tranças. Hoje tenho sete anos e tenho pressa. As mãos da minha mãe nos cabelos e pressa. De te encontrar sentado contra o tempo. No jardim em frente aos prédios. Na praceta da minha infância. Tenho sete anos e saio de casa a correr. Tenho sete anos e posso brincar na rua. Tenho sete anos e uma cara perfeita. Como os anjos. Tenho sete anos e a minha cara ainda não partiu numa direcção indistinta. Saio de casa a correr. Para o jardim em frente aos prédios. Páro. Com um pé atrás do outro. A sentir as asas das borboletas às voltas na barriga. Páro. Porque te vejo sentado no balouço, com o saco dos berlindes a cair-te da mão direita. Avanço um bocadinho. Avanço tudo, com a minha cara perfeita como a dos anjos. Tenho sete anos e tenho pressa. Pergunto-te - e as asas já não voam, golpeiam - queres brincar comigo? #

* Chano Domínguez (6:59) in 'Iman'

# texto publicado antes, sem banda sonora e com o título Asas e Golpes, no blog entretanto extinto - Pilar da Ponte de Tédio