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11/09/2005

Soul is Free*












Guy Le Querrec, 1997, CD 'Suite Africaine' booklet

Podia dizer(te) coisas como 'a minha alma partiu-se como um vaso vazio'#. Mas não. Não tenho alma. E se a tivesse não se partiria como um vazio vaso. Não se partiria. Pronto. Não se partiria porque seria livre. E uma alma livre não parte. Apenas vacila. Mas não tenho alma. E se a tivesse, provavelmente não seria livre. Sou livre porque não tenho alma que se parta ao toque, vazia, como um vaso. Porque não tenho alma. Sou preguiçosa demais para ter alma. Mas se a tivesse, estaria agora a pensar como torná-la livre. Assim sou livre e estou livre do trabalho que ter uma alma me daria.

*Aldo Romano, Louis Sclavis, Henri Texier (5:17) in 'Suite Africaine'

# frase do poema 'Apontamento' de Álvaro de Campos

7/25/2005

Annobon*



Quando chegámos à ilha de Annobon,
a primeira coisa que fizemos foi procurar
um sítio onde arrumássemos as lágrimas.
Não havia como chorar num sítio assim,
com mulheres dançando ao ritmo do vento,
polpas de palmeira em troncos de papel,
sombras conduzidas pelo sopro de deus
como a areia nas dunas de um deserto distante.
A música é o vento que leva o corpo.
E a dança é só uma técnica de respiração.
Assim é em Annobon. Recordo os olhos
das crianças, pequenos focos de luz
a saltarem da carne preta. Os seus sorrisos
de estômago vazio, uma ternura que é impossível
vislumbrar onde as árvores têm nome de gente grande.
Ninguém precisa de saber o nome das árvores
para amá-las. Ninguém precisa de saber o nome
das árvores para amar. Annobon vibra dentro de nós
sempre que os sopros prenunciam a maresia,
o calor, a declinação do sol sobre as águas do Biafra.
Não sei se ainda lhe consegues sentir o cheiro.
Parece distante mas não está.
Basta escutá-lo com atenção.
Gostava de adormecer todos os dias em Annobon,
esses cinco minutos que fazem valer uma vida.
Mesmo quando o sono me trai e o acto de sonhar,
escutar para dentro, rende o silêncio dos nervos à flor da pele.

Texto de Juraan Vink

*Aldo Romano, Louis Sclavis, Henri Texier (5:00) in ‘Carnet de Routes'