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11/11/2007

Exit Music (for a film)*




















Anselm Kiefer - Mann im Wald

Eu não devia viver dentro de uma canção de amor. Dessas de onde apetece fugir. Onde as notas são como facas. Dessas canções. De amor. Onde as notas são lágrimas afiadas. A vazar-nos os olhos. A rasgar-nos a carne. A queimar-nos a pele. Eu devia viver dentro de uma canção de amor. Onde o teu sorriso não estivesse. A lembrar-me para sempre. Onde era o amor. Onde eram as notas. Mansas. Como as árvores centenárias. Eu não devia viver dentro de uma canção de amor. Dessas onde todas as árvores estão mortas. Ou a arder. E de qualquer maneira me empurram. Ao morrer. Para fora da floresta.

* Brad Mehldau Trio (4:23) in ‘The Art of the Trio, Volume 3: Songs’

11/27/2006

Waiting For Eden*









Mário Cesariny - Porta de entrada para o mundo paralelo

Nunca estive tão só diz o meu corpo
e eu rio-me porque o corpo
é o corpo
não tem nada a fazer não tem para onde ir.

Mário Cesariny

* Brad Mehldau Trio (7:32) in 'House on the Hill'

11/23/2006

Find Me In Your Dreams*
















Eu durmo. Mas não sou eu. (Nunca fui eu). Quem (me) sonha. Não sei em que sonhos me encontro. Não sei quem posso ser. Eu durmo. E nada sou.

*Pat Metheny, Brad Mehldau ( 6:10) in 'Metheny/Mehldau'

6/29/2006

Anything Goes*










Juan Miró -Mujer soñando la evásion


Hoje este blog faz um ano. Este blog é sobretudo o jazz. É azul. Mas nem sempre é triste. Às vezes é. Como a vida e tudo mais. Está tudo azul. Ouve-se jazz. Um deus passeia-se comigo pela brisa das tardes**. E aqui dentro há uma espécie de calma reconciliação com tudo o que fui, sou, serei.

* Brad Mehldau Trio (7:07) in 'Anything Goes'

** Descaradamente baseada no título do livro de Mário de Carvalho - Um Deus Passeando na Brisa da Tarde

5/28/2006

Alone Together*















Gustav Klimt - Death and Life

Os mortos nada sabem, porque já nada podem saber. Da morte não se regressa.
Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos (nos) sabem
(certamente à força de tanto querermos que saibam).

Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos regressam
(certamente à força de tanto querermos que regressem).

Não há regresso nem conhecimento para os mortos
(mesmo se, às vezes, parece que ainda há quem nos (re)conheça, estando morto).

Morreste(me). E já não podes saber nada de quem sou
(se nem eu sei!).

Já não podes saber que é a ti que procuro quando só outros encontro. Outros que não estão mortos
(mas, na verdade, tanto me fazia se estivessem).

Já não podes voltar(te) quando te chamo
(porque preciso de ti)
às vezes com o desespero de precisar só da tua mão percorrendo o meu cabelo. Outras vezes com o brutal desejo dos teus braços. E, raramente, com a certeza de que me ampararias as lágrimas.

Disfarço. Que a morte assusta os vivos. Os nossos mortos assustam-nos os vivos. E, assim sendo, para que ninguém se assuste, disfarço
(está este calor dissolvente e os mosquitos agrupam-se no vidro, na expectativa da luz).

Morreste(me) e não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que te esqueço quando procuro e, por vezes encontro, outros braços, outros corpos, outros que (me) encontram quando, por vezes, procuram. Não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que não é a ti (e só a ti) que sigo querendo
(na expectativa da luz).

Disfarço.
(um mosquito entra dentro do quarto demasiado quente, apesar da janela fechada. Há sempre pequenas brechas para quem procura. A luz)
e mesmo assim. Nos percursos diários. As pessoas revelam-me o que, embora vivas, desconhecem. Estás com bom ar. Estás mais bonita. Que tens andado a fazer?
(A cabra! Com melhor ar! Mais bonita! Do que o antes da tua morte!).

Disfarço. Nos percursos diários. Revelam-me o que (ainda) não se sabe.

O que ainda se desconhece é que morrendo, me mataste
(e, já se sabe, aos olhos dos vivos, os mortos serão sempre mais bonitos do que alguma vez foram em vida).

Os vivos desconhecem que disfarço a vida. Que estou morta da tua morte. Que morri a morte que morreste
(na expectativa da luz)
e que cuidaste, talvez, só tua.

Os vivos desconhecem que nada sei já também. Porque nada posso já saber. Não posso regressar da (tua) morte.
Mesmo se, às vezes, parece que sei
(A cabra!)

Mesmo se, às vezes, procuro regressar
(com melhor ar! E mais bonita! Que andará a fazer?)
na expectativa da luz.

* Brad Mehldau, Lee Konitz e Charlie Haden (13:45) in ‘Alone Together’

E porque existem muitas versões, escolho também estas com que disfarço a vida. Ou a morte. Tanto faz:

Miles Davis (7:20) in 'Blue Moods'


Chet Baker (6:46) in 'Chet'


Wallace Roney (8:54) in ‘Alone Together: Essential Late Night Jazz’


3/29/2006

Things Behind The Sun*













Anselm Kiefer - Sol invictus

Não me digam que a beleza não magoa. Sobretudo. Não me digam que a beleza não mata. Não me digam que as palavras ao construirem as pontes. Os nós. As cadeias. As teias. Não desconstroem. Também. Tudo. Não me digam que tudo pode ser dito. Sobretudo. Não me digam que a beleza pode ser dita. Sempre. Não me digam que há coisas para além do sol. Quando as que se encontram aquém dele. Até onde o olhar e os demais sentidos podem alcançar. São. Insuportávelmente. Belas. Mesmo depois de queimadas. Não me digam que o amor não magoa. Que o amor não mata. Que a construção do próprio amor. Não destrói. Sempre. Qualquer coisa. Mesmo que o amor seja absoluto. Absolutamente verdadeiro. Não me digam que as pétalas dos girassóis sempre estarão vivas. E que a beleza é isso. Porque. Há demasiada e demasiadamente violenta beleza num girassol desfeito. Para cá. Do sol. Ou das restantes. Estrelas. Há demasiada beleza. Uma insuportável beleza. Neste amor. Que me destrói.

* Brad Mehldau (4:37) in 'Live in Tokyo'

3/14/2006

She's Leaving Home*



Ela saiu-me! [finalmente!] Saiu-me de cá dentro, da minha vida, da vida que não tinha, que era nossa. Saiu-me e levou-me em parte com ela [não sei quanto de mim partiu]. Bem, mas ela saiu e isso é que me interessa. Estou só. Ela saiu. Fiquei só como pretendia, como sempre lhe disse que queria, sem mim [disparate! Sem ela!] Não importa sei que fiquei, ainda me conseguirei restar alguma coisa. Não precisarei de buscar muito para me voltar a rever, para me reencontrar, para encontrar quem fui em tempos [já sabes lá tu quem serias em tempos!]. Eu bem sei quem era! Ela saiu-me e eu estou a morrer! Com a minha falta, estou a morrer. Com a falta de mim, da parte que ela me levou.

Fazes-me falta! … Volta! Volta por favor e dá-me, ainda me tens!?

Texto de JOS

*Brad Mehldau Trio (9:07) in 'Day is Done'

1/02/2006

From This Moment On*













Robert Doisneau


Nada mais triste. Um carrossel à chuva. Eu hoje sou o carrossel molhado. Que girou sob o sol que não havia. Mas havia. Que se deixou ficar. Parado. Ferrugento. Chiando com o vento. À chuva. Sabendo que não houve nunca sol. Mas houve. Que só a chuva é real. Mas não. Neste decisivo momento como são todos podia fingir que canto. Que não me importo de estar ao sol ou à chuva. Que não sou esta imagem de desalento ou estas notas que parecem gotas. Mas não. Nada mais triste. Não conseguir fingir. Que canto. Ou que enlouqueço.

* Brad Mehldau (7:55) in 'Live in Tokyo'

10/26/2005

Resignation*













De nós, se houve nós, não há memória em nós. Mas o mais certo é o nós nunca ter sido. Um nós. Ou um de nós. Um e um. Não dois. Não nós. Apenas me lembro disto. Disseste: amo-te. Depois deste-me um murro nos dentes. E eu fiquei com cicatrizes. Com pontos. Com nós.

* Brad Mehldau (8:39) in ‘The Art of the Trio, Volume 5: Progression’ (Disco 2)

7/19/2005

Don't Explain*



É a tua música preferida. Qualquer que seja a versão. E há demasiadas versões para esta música.
Quase tantas como as versões que existem para a traição. Para as múltiplas traições. A começar para o modo como, no amor, nos traímos tantas e tantas vezes a nós mesmos. Quase tantas como as diversas vezes em que nos perdoamos as mentiras pequenas. Menos do que as vezes em que tentamos perdoar as verdades que magoam. As nossas. E as dos outros. É a tua música preferida. Não consegui nunca compreender porquê.
Mas lembro-me de um dia em que me falavas desta música, das suas tantas versões e do modo como e porquê gostavas tanto de todas elas. Eu comecei a chorar. Disse-te uma das verdades. Das minhas. Daquelas que, pensei eu, nos magoam.
Tu continuaste a sorrir. Pegaste-me na mão e disseste-me que não te explicasse nada. Que cada um de nós era livre. Para ir e voltar. Para partir se tivesse mesmo que ser. Não expliques nada. Disseste. Estou aqui para sempre. E estiveste. E estás. Explico-te sempre. Explicas-me sempre. Mas é como se nunca o fizessemos.
Porque somos livres. Dizemos. Ficamos contentes quando um de nós regressa dos sítios e das pessoas onde esteve. Ficaríamos do mesmo modo, se algum de nós, não soubesse já regressar?
Não me respondas. Por uma vez, não me expliques... «quiet baby, don't explain...».

* Escolhi a versão de Joel Frahm (com Brad Mehldau) (3:21) in ‘Don’t Explain’

Mas porque não podes (ou eu) passar sem as outras, aqui ficam também algumas delas,
começando por uma das muitas versões da autora:

Billie Holliday (2:33 ) in 'The Billie Holiday Songbook'

Sonny Rollins (com Abbey Lincoln) (6:38) in 'The Freelance Years: The Complete Riverside and Contemporary Recordings' (Disco 4)

Nina Simone (4:14) in 'Feeling Good'

7/07/2005

River Man*



















Pablo Picasso -L'Étreinte

Tu és o homem. O homem mais mulher que eu conheço. Ou seja. A pessoa.
Tu és a pessoa.
Amo-te com a força de um abraço. Reconhecemo-nos mutuamente no meio da chuva. Identificamos os nossos passos em cada edíficio que tomba atrás de nós. Sabemo-nos de cor. As mortes diárias. As vidas que fazemos. As palavras. E, todavia, é como se fosse sempre tudo pela-primeira-vez. E repetimos tudo como se fosse sempre a-primeira-vez.
Teremos oitenta anos. Continuaremos vida dentro. A conhecer-nos. A saber-nos de cor. Sempre com os braços estendidos à procura do que temos um do outro.
Podia dizer-te a palavra amigo. Mas escolho para ti a palavra música. E ainda a palavra homem. E a palavra rio. E claramente a palavra P o n t e.

Para F.

* Brad Mehldau (8:58) in ‘Live in Tokyo’