7/19/2005

Don't Explain*



É a tua música preferida. Qualquer que seja a versão. E há demasiadas versões para esta música.
Quase tantas como as versões que existem para a traição. Para as múltiplas traições. A começar para o modo como, no amor, nos traímos tantas e tantas vezes a nós mesmos. Quase tantas como as diversas vezes em que nos perdoamos as mentiras pequenas. Menos do que as vezes em que tentamos perdoar as verdades que magoam. As nossas. E as dos outros. É a tua música preferida. Não consegui nunca compreender porquê.
Mas lembro-me de um dia em que me falavas desta música, das suas tantas versões e do modo como e porquê gostavas tanto de todas elas. Eu comecei a chorar. Disse-te uma das verdades. Das minhas. Daquelas que, pensei eu, nos magoam.
Tu continuaste a sorrir. Pegaste-me na mão e disseste-me que não te explicasse nada. Que cada um de nós era livre. Para ir e voltar. Para partir se tivesse mesmo que ser. Não expliques nada. Disseste. Estou aqui para sempre. E estiveste. E estás. Explico-te sempre. Explicas-me sempre. Mas é como se nunca o fizessemos.
Porque somos livres. Dizemos. Ficamos contentes quando um de nós regressa dos sítios e das pessoas onde esteve. Ficaríamos do mesmo modo, se algum de nós, não soubesse já regressar?
Não me respondas. Por uma vez, não me expliques... «quiet baby, don't explain...».

* Escolhi a versão de Joel Frahm (com Brad Mehldau) (3:21) in ‘Don’t Explain’

Mas porque não podes (ou eu) passar sem as outras, aqui ficam também algumas delas,
começando por uma das muitas versões da autora:

Billie Holliday (2:33 ) in 'The Billie Holiday Songbook'

Sonny Rollins (com Abbey Lincoln) (6:38) in 'The Freelance Years: The Complete Riverside and Contemporary Recordings' (Disco 4)

Nina Simone (4:14) in 'Feeling Good'

4 comments:

C.S.A. said...

E., um belo texto de Jazz! (assim mesmo)

Elisa said...

Obrigada C. A música é que é bela. E a letra. o resto são memórias.

Diletante a priori said...

Olá Elisa,

Belo blogue... faz lembrar o "Interiors" do Woody Allen... é todo teu e só teu - tão teu que, honestamente, até me sinto mal de estar a ler tudo o que aqui escreves... eheheh.

A versão... é a da Nina, sem dúvida. Se me encostassem uma navalha à garganta para me obrigarem a escolher a melhor JazzyGirl (cof...cof) de todos os tempos eu morreria de desgosto, mas lá cederia. É a Nina. Isto de cantar com personalidade não é para qualquer Jacinta nem para qualquer Jane Monheit... a minha Ella, coitadita, já teve o azar de ser muito imitada. A única que tentou imitar a Nina deu-se tão mal que até conseguiu criar um estilo próprio - a Patricinha Barber. Mas isto são só opiniões...

Elisa said...

Ora T. até que enfim que me visitas aqui neste canto. Gostaste? :-) Meu e só meu... isso não é, porque há mais pessoas (felizmente) que escrevem textos para aqui.
Estamos de acordo na Nina Simone. Não diria que é a melhor JazzyGirl (ehehehe... tosse, pois), pois tenho dificuldades em classificá-la totalmente como uma cantora de jazz... mas é a melhor. Pelo menos é a minha cantora (seja do que for) preferida. Bom, eu também gosto muito de outras jazzygirls (da Jacinta mais ou menos e da J. Monheit....hum... acho-a um bocadinho sem 'alma')da actualidade... a René Marie, a Laverne Butler, a Carla Cook por exemplo. E, sim, também a Patricia Barber. Mas há outras para além da Ella (e que gosto mais de ouvir): a Sarah Vaughan ou a Carmen MacRea. Já para não falar das evidentes Billie e Dinah. Opiniões, claro. Vê se visitas estes canto mais vezes.