7/06/2005

Just like the day*









Para o G. - o dono destas mãos (e das minhas).


Nasceste-me. Sem ser de mim. No dia em que nasceste. Nasceste-me. Ainda olhei primeiro a tua mãe. Ainda olhei, depois, o teu pai. Estava tudo bem.
E então vi-te.
Pequenino. Pequenino. Pequenino.
A habituares-te à ideia do mundo. E toquei-te. E deixei de pensar.
Sei que desejei, quando agarrei os teus dedos. Pequeninos. Desejei que o mundo todo se alcatifasse. E que calçássemos os chinelos e vestíssemos os pijamas. E adormecessemos todos no ritmo a que respiravas. Desejei que tudo se amaciasse. Nasceste-me. Cresces-me.
E vejo como tu amacias tudo. Vejo como andas. Sinto a tua respiração. Vejo como tomas conta de mim. Como sabes sempre a razão. Das minhas coisas.
Nasceste-me. E és todas as crianças. Sobretudo as que (já não) terei. De todas as pessoas, crescidas e pequeninas, és para sempre a minha pessoa preferida. E quando respiras sei que sabes. Sabes.
Que quando te toquei no dia em que (me) nasceste ficámos com a marca um do outro. Dentro.

* Pat Metheny (4:43 ) in 'Trio 99 > 00'

13 comments:

Mendes Ferreira said...

a beleza é mesmo intemporal....e generosa.

Turno da Noite said...

Muito bom E., Muito bom.

à margem: Os gregos e os romanos referiam-se a 'orphanós' no sentido de 'privado de', referindo-se tanto a filhos que perdem os pais, como a pais que perdem os filhos, bem como às pessoas que não têm filhos. Esses segundo e terceiro sentidos perderam-se, infelizmente, o que traduz a não relevância da sociedade por isto, infelizmente.
Isto é completamente à margem, pelo teu parêntesis (já não)! e daria um post.

C.S.A. said...

É, não é, JOS? Muito bom!
E as representações da paternidade e da parentalidade tradicionais caem de pantanas. Isto a questão dos atributos dava pano para mangas...
Bom dia, E.

Elisa said...

Eu amo (amor sim, é amor) esta pessoa pequenina, desde o dia em que nasceu. Esta pessoa ainda é pequenina... mas cresceu. Cresce comigo e cresce-me a mim. É filho de uma pessoa que nasceu com um intervalo de horas, no mesmo ano, na mesma maternidade que eu. Aposto que piscámos o olho uma à outra nesse dia em que nos cruzámos. Pequeninas. Como quem diz - até logo. Esse até logo concretizou-se 18 anos depois. Foi há 20 anos. Gostei de G. antes dele nascer porque era o filho dela. Agora gosto dele por ser ele. Podia não ter acontecido isto. Mas foi isto que aconteceu e acontece.
O já não... o já não... não me sinto privada de filhos. Racionalmente nunca os quis ter. Quando, ocasionalmente, os desejei, as circunstâncias impuseram-se. o parentesis talvez signifique que posso ainda desejar tê-los e tê-los, de facto. Mas racionalmente... ainda não.

Mendes Ferreira said...

E. ....................:)

Elisa said...

I
que grande sorriso. A que se deve? Hum? Quer dizer, sabe bem...

sandra costa said...

Cada vez que encontro o Pat Metheny, lembro-me de um concerto de memória, onde estive:
No CAE da Figueira da Foz, ele e Charlie Haden...
O Haden que disse assim:
"As long as there are musicians who have a passion for spontaneity, for creating something that's never been before, the art form of jazz will flourish."
E eles são assim, ambos...
Este teu texto Elisa, tem a musicalidade do tema Spiritual, dos mesmos, do trabalho "Beyond The Missouri Sky"...

E tem(-te) Elisa como sempre esperei.
Obrigada por te seres também assim.

Anonymous said...

Apenas para cumprimentar e parabenizar por este belíssimo blogue. A partir de hoje, direitinho para os 'Favoritos'. Tremendo bom gosto...

paulo fogg said...

O 'anônimo' acima, das 10:38PM, assina: paulo fogg.

Anonymous said...

Sandra
também me sou assim. Entre outras coisas, como sabes, tal como tu. E tens razão... os comentários não estão a funcionar como deve ser. Só posso deixar como 'anónimo'. Mas sou eu.
Elisa

Anonymous said...

Paulo... a (fogg)y day in London town (prefiro a versão da Billie Holiday)
Muito obrigada. Volte.
Elisa (forçadamente e sob protesto, anónima)

Elisa said...

Bolas.
Foi mesmo a Foggy Day in London Town :-(

paulo fogg said...

Foi... :((