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Eu durmo. Mas não sou eu. (Nunca fui eu). Quem (me) sonha. Não sei em que sonhos me encontro. Não sei quem posso ser. Eu durmo. E nada sou.*Pat Metheny, Brad Mehldau ( 6:10) in 'Metheny/Mehldau'
W. Kandinsky - Contrasting SoundsPodia ter apenas uma canção. Uma que soubesse. Cantar. Podia ter apenas uma vida. Uma que soubesse. Contar. Podia ter apenas um amor. Um que soubesse. Amar. Podia ter apenas um nome. Com que me pudessem. Chamar. Podia ter apenas um desejo. Um que me fizesse. Correr. Podia ser apenas. Eu. Dentro de mim. * Pat Metheny (4:22) in 'One Quiet Night'
Maria, que me queres?** A mim, que me esforço por evitar correntes, a não ser as dos afectos e possuo bem mais manias que cinco? Que me queres tu, Maria? Que exponha as minhas pequenas idiossincrasias, já que as grandes, nem às paredes confesso, quanto mais aos telhados de vidro da blogosfera!? Pois, Maria, eu se pudesse resumir-me, dir-te-ia que tenho- A mania de acreditar. De achar que é sempre tudo novo. Mesmo que nada mude. E que tudo, indefinidamente, se repita.- A mania de gostar de palavras. Da palavra vento. Da palavra casa. Da palavra pedra. Da palavra inquietude. Da palavra árvore. E de girassois.- A mania completamente prosaica das limpezas. E da ordem. Mania que me custa muitas tarefas, incluindo as que não pedi. E as que não gosto.- A mania de cheirar os livros, quando os abro. Os novos e os velhos. De reconhecer neles qualquer coisa que os olhos não detectam. Nem os restantes sentidos.- A mania de dizer muitas vezes a mesma coisa. Aos outros. E a mim. Não sei, Maria, se era isto que me querias. Não sei, Maria, se os meus escolhidos continuarão a corrente.- improvisos ao sul
- a forma do jazz
- a espuma dos dias
- a natureza do mal
- mentes inquietas
*Pat Metheny (5:24) in ' Trio 99>00'** Parece que se tratou de um repto lançado por En Defensa de Occidente a um Misantropo Enjaulado (há outra maneira de ser Misantropo?) e que temos que listar cinco manias.
Henri Cartier Bresson Roumanie, 1975Apanhamos um comboio. Tomamos o nosso lugar. De repente nascem todas as possibilidades. Até à estação pouco a pouco. À medida e na velocidade a que se devora a terra, tudo pode ser. O que não é. Ou que é. Ou será. É o mesmo. Apanhamos o comboio. O mesmo. Ou outro. Tanto faz. E de repente tudo deixou de ser. Ou poder ser. Não é, não será. Nunca pareceu ser. Nunca foi. A terra devorou a velocidade. A terra aniquilou toda a urgência. Mesmo se pouca. Era possível. Deixamos lábios. E olhos. E mãos. Abertos e vazios. Sem nada. Deixamos atrás da terra as gotas da chuva na urgência de alguém. Apanhamos o comboio. E a terra molhada não parou de se comprimir atrás de nós. Até não respirar. Até reter toda a água. Toda a terra. Toda a possibilidade. Todo o ser. Toda a urgência. Até reter tudo. Até morrer. Na estação.* Pat Metheny (4:35) in 'One Quiet Night'
Para o G. - o dono destas mãos (e das minhas).Nasceste-me. Sem ser de mim. No dia em que nasceste. Nasceste-me. Ainda olhei primeiro a tua mãe. Ainda olhei, depois, o teu pai. Estava tudo bem. E então vi-te. Pequenino. Pequenino. Pequenino. A habituares-te à ideia do mundo. E toquei-te. E deixei de pensar.Sei que desejei, quando agarrei os teus dedos. Pequeninos. Desejei que o mundo todo se alcatifasse. E que calçássemos os chinelos e vestíssemos os pijamas. E adormecessemos todos no ritmo a que respiravas. Desejei que tudo se amaciasse. Nasceste-me. Cresces-me. E vejo como tu amacias tudo. Vejo como andas. Sinto a tua respiração. Vejo como tomas conta de mim. Como sabes sempre a razão. Das minhas coisas. Nasceste-me. E és todas as crianças. Sobretudo as que (já não) terei. De todas as pessoas, crescidas e pequeninas, és para sempre a minha pessoa preferida. E quando respiras sei que sabes. Sabes. Que quando te toquei no dia em que (me) nasceste ficámos com a marca um do outro. Dentro.* Pat Metheny (4:43 ) in 'Trio 99 > 00'