5/28/2006

Alone Together*















Gustav Klimt - Death and Life

Os mortos nada sabem, porque já nada podem saber. Da morte não se regressa.
Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos (nos) sabem
(certamente à força de tanto querermos que saibam).

Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos regressam
(certamente à força de tanto querermos que regressem).

Não há regresso nem conhecimento para os mortos
(mesmo se, às vezes, parece que ainda há quem nos (re)conheça, estando morto).

Morreste(me). E já não podes saber nada de quem sou
(se nem eu sei!).

Já não podes saber que é a ti que procuro quando só outros encontro. Outros que não estão mortos
(mas, na verdade, tanto me fazia se estivessem).

Já não podes voltar(te) quando te chamo
(porque preciso de ti)
às vezes com o desespero de precisar só da tua mão percorrendo o meu cabelo. Outras vezes com o brutal desejo dos teus braços. E, raramente, com a certeza de que me ampararias as lágrimas.

Disfarço. Que a morte assusta os vivos. Os nossos mortos assustam-nos os vivos. E, assim sendo, para que ninguém se assuste, disfarço
(está este calor dissolvente e os mosquitos agrupam-se no vidro, na expectativa da luz).

Morreste(me) e não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que te esqueço quando procuro e, por vezes encontro, outros braços, outros corpos, outros que (me) encontram quando, por vezes, procuram. Não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que não é a ti (e só a ti) que sigo querendo
(na expectativa da luz).

Disfarço.
(um mosquito entra dentro do quarto demasiado quente, apesar da janela fechada. Há sempre pequenas brechas para quem procura. A luz)
e mesmo assim. Nos percursos diários. As pessoas revelam-me o que, embora vivas, desconhecem. Estás com bom ar. Estás mais bonita. Que tens andado a fazer?
(A cabra! Com melhor ar! Mais bonita! Do que o antes da tua morte!).

Disfarço. Nos percursos diários. Revelam-me o que (ainda) não se sabe.

O que ainda se desconhece é que morrendo, me mataste
(e, já se sabe, aos olhos dos vivos, os mortos serão sempre mais bonitos do que alguma vez foram em vida).

Os vivos desconhecem que disfarço a vida. Que estou morta da tua morte. Que morri a morte que morreste
(na expectativa da luz)
e que cuidaste, talvez, só tua.

Os vivos desconhecem que nada sei já também. Porque nada posso já saber. Não posso regressar da (tua) morte.
Mesmo se, às vezes, parece que sei
(A cabra!)

Mesmo se, às vezes, procuro regressar
(com melhor ar! E mais bonita! Que andará a fazer?)
na expectativa da luz.

* Brad Mehldau, Lee Konitz e Charlie Haden (13:45) in ‘Alone Together’

E porque existem muitas versões, escolho também estas com que disfarço a vida. Ou a morte. Tanto faz:

Miles Davis (7:20) in 'Blue Moods'


Chet Baker (6:46) in 'Chet'


Wallace Roney (8:54) in ‘Alone Together: Essential Late Night Jazz’


4 comments:

catarina said...

Gostei muito do poema que nos presenteou. É muito bonito - forte e denso, cheio de amor e amizade. Obrigada. 1 beijo

Elisa said...

Ola Catarina.
Obrigada.
Não é um poema, é só um texto. Mas estava cheio dessas coisas, sim.
Beijinho

salsa said...

Eis um cadáver difícil de sepultar:

Ode à Dor

I
O olhar, distraído,
encantado com o brilho
da estrela morta,
insiste em retardar o fim da noite.
E, antes que o sol ameace o sonho,
adormece a carne
entre lembranças entalhadas
pelas seis vezes mil e uma noites,
espalhadas em outro tanto
de páginas rasuradas
por versos quebrados.

II

A fátua luz insistia
no ocaso dos olhares
– o titubear do adeus:
o freudiano
acordar para continuar sonhando,
o shakespeareano
dormir, sonhar talvez...
portas do labirinto do castelo
onde a face multiforme
de uma dorzinha chata e sem nome
entremeada com vozes, risos e vinhos
parece divertir-se ao encarcerar
no lusco-fusco dos seus corredores
o bom, velho e (des)esperado
salto pela janela.

III

Na primeira vez que a vi
seu non-sense corroeu a, em mim,
pretensa sólida estrutura herdada.
Dentes brancos e fortes aqueles,
unhas fortes e afiadas aquelas:
marcaram a minha carne
e tatuaram em minha alma
salmos e cânticos, e fizeram-me
lacrimejar ao ler elegias de Safo,
urrar tragédias e chutar cães sarnentos.
Usei chibata e banho de salmoura
para desentranhá-la
– vade retro, Satanás, te’sconjuro Belzebu –,
e exilá-la, lá longe, onde
meus olhos não a alcancem
e sua voz não me convença
que isso é só mais um engano.

IV

Sim,
não tive pena da Dor
e a sufoquei sem piedade.
Deixei-a gemer e espernear
– criança sem palavras –
e ela uivou pra lua
como uma loba no cio.
Sem dó arranquei suas unhas e presas
e a deixei sangrando, indefesa,
à mercê de outras, famintas,
da sua espécie.
Sim,
e quando a fúria, impotente,
brotou em seus olhos
eu os furei com ferro quente.
Ó Dor, cega e muda,
por mim esquartejada
e abandonada aos cães:
não sei do seu sepulcro,
não li sua lápide
e não te ofereço nenhuma prece.

Elisa said...

Obrigada Salsa