8/01/2005

Everytime We Say Goodbye*



Tenho dificuldade em dizer. Adeus. Ou outra palavra qualquer que seja o anúncio de uma despedida. Mesmo que a ausência dure só uns minutos. Umas horas. Ou uns anos. Ou todo o tempo que nos resta. Mesmo que a despedida seja uma promessa de que amanhã nos encontraremos. Ou encontraremos seja o que for de que agora nos despedimos. Em cada despedida há alguém que morre. Tantas coisas que ficaram por dizer. Mesmo pequenas. Mesmo pouco importantes. Em cada despedida há um universo paralelo de possibilidades de se ser e de se estar se, só por acaso, a despedida não o fosse. Qualquer coisa que atraiçoa a celebração do reencontro. Qualquer coisa que mata as palavras. Que nos deixa em silêncio. Sozinhos.
Sozinhos.
Mas não no silêncio e na solidão que procuramos. Mas na solidão e no silêncio que não queremos encontrar e nos colocam mais longe uns dos outros. E, sobretudo, de nós e do que fomos nós com os outros. Dizer adeus é a evidência de que se esteve em algum lugar e temos que ir embora. E quando vamos embora deixamos de estar e de ser. Não somos. Não estamos.

* Nina Simone (3:27) in ‘Forbidden Fruit’.

E porque são incontornáveis, violentamente femininas, estas vozes e palavras e despedidas, escolho também as versões de:
Betty Carter (5:48 ) in 'Whatever Happened to Love'


Sarah Vaughan (2:23) in 'After Hours'


Carmen McRae (3:00) in 'Carmen McRae Sings Great American Songwriters'



E porque também se diz adeus, sem palavras, escolho a versão de
Charlie Haden (4:18) in ‘Haunted Heart’

16 comments:

Rui said...

Quando uma pessoa se vai embora sem se despedir, isso magoa-me e deixa-me inseguro: será que não vai voltar?, ou simplesmente nem se deu conta que eu existo?
Porque uma despedida, Elisa, pode ser uma maneira de dizer: estou a afastar-me de ti agora, mas vou voltar. É uma maneira de dizer: foste e és importante para mim.
(estarei pr’aqui a dizer asneiras?)

Elisa said...

Hum... acho que sim, Rui. Desculpa. Mas estou a ver estas coisas das despedidas do meu ponto de vista. Para mim é sempre ir embora. E há pessoas de quem eu gostaria de nunca me despedir.

Rui said...

Também eu.

Anonymous said...

"no silêncio e na solidão que procuramos", "na solidão e no silêncio que não queremos encontrar" - é toda uma diferença, não é? ;)

"Em cada despedida há alguém que morre" - ou morremos nós um pouco dia após dia (como dizem alguns, no que o tempo nos aproxima da morte), (digo eu, no que nos foi ficando por fazer, dizer, respirar, viver,...)

mas, claro, há despedidas e há reencontros - ou nascemos nós um pouco dia após dia (como dizem alguns, no que o tempo nos traz de mudança), (dizias tu, no tempo que começa,...)

margem

Anonymous said...

da música -

é sempre curioso poder ouvir várias versões. aqui, o meu gosto pessoal virou-se para a da Nina Simone (tão melancólica) e a da Sarah Vaughan.

não conhecia Charlie Haden até ouvir o seu trabalho com Pat Metheny (que, confesso, não é género de minha eleição); mas esse trabalho em conjunto ("Missouri Sky", creio)... gostei! conheces?

margem

Gregorio Salvaterra said...

E cada vez que digo olá parece que se abre uma porta sobre um mundo novo. Admirável, se o olhar o permitir.
Gostei da bebedeira. E dizia o poeta que de vinho, poesia ou virtude... o que é preciso é embriagarmo-nos.
Hoje vou contar que apanhei uma bebedeira de azul.
Toma um beijo, porque sim.

Anonymous said...

E cada vez que digo olá parece que se abre uma porta sobre um mundo novo. Admirável

Elisa said...

Pois... já vês, Rui,

Elisa said...

margem... despedidas, reencontros. Acho que de uma vez para a outra se perde alguma coisa. Não sei. Uma coisa qualquer. Mas talvez esteja errada.
Gosto do Pat Metheny e do C. Haden mas... (ó ceus!) não conheço esse disco de que falas. Vou já resolver a falha (esta).

Elisa said...

Olá Contador de Gaivotas (este nome é fantástico). Tenho falado de gaivotas nos meus outros blogs... e apareces tu, que as contas? :-)
Porque sim, toma um beijo também.

Anonymous said...

o CD chama-se "beyond the Missouri Sky" e eu gosto, porque não tem aquela sonoridade jazz-rock (não sei se é o termo correcto) que não aprecio muito no pouco que ouvi do Metheny.
deves encontrar informação aqui:
http://www.patmethenygroup.com

já agora, a outra (única) ocasião em que ouvi Charlie Haden foi num CD deste com Carlos Paredes (bom, agora não me lembro se o fizeram em conjunto ou se Haden interpretetou Paredes, mas penso que foi em conjunto): chama-se "Dialogues".

margem

Elisa said...

Mais oui, margem pour les Dialogues. E obrigada, pelo resto, tudo. Olha lá... nós não devíamos ir beber um café ou assim? Isto é engraçado... estivemos tão perto e agora é que estamos mais próximas, na verdade. Coisas de viver nas cidades ou coisas de viver ao contrário dos outros, nos horários... digo eu.

Anonymous said...

... depois escrevo. vou estar uns dias fora, tentar... (que o calor sufoca, não soa a férias, eu tb não).
(ah, mas pior, pior, o calor deixa-se usar, e a terra morre, a gente morre :( )

margem

Carlos Azevedo said...

As versões que apresenta são opções de 1.ª linha. Faltou, contudo, o "ex-libris": a versão de Ella Fitzgeralg in "The Cole Porter Soongbook".

Elisa said...

Carlos
Ola desde Praga. Tem razao. Faltou essa versao. Mas confesso que gosto menos dela do que das que apresento. Obrigada e va passando.

casimiro said...

Isso é exactamente o que sinto em relação à despedida. Com uma diferença. a elisa conseguiu expôr isso desta forma. eu não. obrigado.

casimiro

http://mentes-in-quietas.blogspot.com