1/24/2008

Visions*





















René Magritte - The Invisible World

Apetecia-me dizer-te, em todas as línguas do mundo, todas as coisas belas. Em todas as línguas do mundo. Em todos os lugares. Mas não saio daqui. De pedra. Tartaruga. Tu és borboleta. Em todas as línguas do mundo. Pode-se sonhar o coração?

*Enrico Rava, Javier Girotto, Ares Tavolazzi, Fabrizio Sferra (4:36) in 'Full of Life'

1/04/2008

Vent Poussière (à L.S.)*























Anselm Kiefer - Abendland

Os mistérios do vento. A melancolia da estrada. O pó. As estações da memória. As rugas do tempo. As silenciosas montanhas. As árvores muito nuas. As tuas mãos contra o esquecimento. A suave saudade dos teus olhos. O teu riso muito longe. As florestas densas. O brilho de todas as estrelas mortas. As gotas paradas da chuva. A nostalgia da infância. O fumo. A lua cheia e lenta. A cor das minhas ideias. A obscuridade vagarosa. O deus enorme dos desertos. Os comboios que atravessam as noites. Podia ser um país. Esta poeira. Eu.

* Henri Texier (5:07) in 'Remparts d'Argile'

12/31/2007

Love Ballade*





















Pablo Picasso - L'Acrobate Bleu


A beleza. Toda a beleza que ainda há. Há-de um dia. Dominar o (nosso) mundo.


*Oscar Peterson (14:05) in 'Summer Night in Munich'

12/19/2007

White Christmas*




















Joan Miró - Estrella Azul



Desejo a todos e a todas umas óptimas festas.
Que 2008 seja um ano cheio. De sucessos pessoais e profissionais. De paz. De alegria. De bom humor. E da beleza que ainda anda pelo mundo.
Um abraço



* Louis Armstrong (2:39) in '20th Century Masters - The Christmas Collection: The Best of Louis Armstrong'

11/29/2007

Poinciana (The Song of The Tree)*


















Piet Mondrian - The Red Tree

A árvore é uma habitação perdida. E encontrada**. As árvores lembram-nos o que seríamos se pudessemos ser durante séculos.
As árvores exigem a nossa lenta reverência**. Com vagar, diante do tronco rugoso, das folhas que rebentam novamente a cada primavera, dos ramos que se tingem de vermelho para depois se despirem, no outono... reconhecemos o quão pequenos somos. E fugazes. As árvores não.
As árvores permanecem majestosas mesmo quando deixarmos de poder reconhecê-las.

* Ahmad Jamal (8:06) in 'The Legendary Ahmad Jamal Trio Live'
** frases de António Ramos Rosa, no poema cada árvore é um ser para ser em nós

Poinciana é uma árvore tropical de folhagem abundante e escarlate ou, outras vezes, laranja. Também pode ser chamada a árvore vermelha.

11/11/2007

Exit Music (for a film)*




















Anselm Kiefer - Mann im Wald

Eu não devia viver dentro de uma canção de amor. Dessas de onde apetece fugir. Onde as notas são como facas. Dessas canções. De amor. Onde as notas são lágrimas afiadas. A vazar-nos os olhos. A rasgar-nos a carne. A queimar-nos a pele. Eu devia viver dentro de uma canção de amor. Onde o teu sorriso não estivesse. A lembrar-me para sempre. Onde era o amor. Onde eram as notas. Mansas. Como as árvores centenárias. Eu não devia viver dentro de uma canção de amor. Dessas onde todas as árvores estão mortas. Ou a arder. E de qualquer maneira me empurram. Ao morrer. Para fora da floresta.

* Brad Mehldau Trio (4:23) in ‘The Art of the Trio, Volume 3: Songs’

10/21/2007

Movimentos Invisíveis*



















Anselm Kiefer - Die Sieben Himmlspaläste

Os lugares mais longe são os que ficam dentro de nós. Não os conhecemos nunca. A menos que. Uma leve pena. Desenhe um mapa. Ou só nos estremeça.

* Bernardo Sassetti, Rui Rosa, Yuri Daniel (3:52) in 'Alice'

10/16/2007

Time Remembered*

















Paul Klee - Embrace

Esquecemos o tempo. Todo o tempo. Menos os abraços. O tempo. Que demoram. Os abraços.

* Bill Evans Trio (5:35) in 'Time Remembered'

10/02/2007

Autumn Leaves*


















W. Kandinsky - Autumn in Bavaria


As folhas. O vento. A dança. Eis que tudo principia a morrer. Até à morte. Para que tudo recomece. Mais adiante. Gosto disto. Destas folhas. Deste vento. Desta dança. Desta promessa de morte. Que nunca se cumpre por inteiro.

* Ahmad Jamal (2:41) in 'Legendary Okeh & Epic Recordings'

Ahmad Jamal vai estar na edição de 2007 do Guimarães Jazz. Consultem a programação daquele que é um dos meus festivais favoritos aqui

9/12/2007

Lisbon*






















Maluda - Telhados de Lisboa


Podia ter nascido em mil lugares. Mas não. Sou deste. E comove-me. Podia ter nascido em mil lugares. E deles seria. Comovida.

* David Binney (3:40) in 'Cities and Desire'

9/03/2007

Verão*




J. Vermeer - Vista de Delft

O Verão acaba quando acabam as férias. Não gosto do Verão. Mas gosto menos ainda. Quando acaba. Quando acabam as férias. E acabam as viagens de prazer. Começam outras. Impostas pelo ritmo dos dias e por aquilo que se pode discutir, ensinar e aprender. Que comecem essas. E que comece o Inverno.

* Amsterdam Jazz Orchestra in 'Finding The Way'

8/11/2007

First Trip*




















Vincent Van Gogh - Sunflowers




Todas as viagens são as primeiras. Agora vou-me embora. Pela primeira vez. Como sempre. Intermitentemente virei olhar. Ouvir. Mas os olhos farão outras viagens. Até aos girassóis de Van Gogh, por exemplo. Em Setembro volto. Pela primeira vez. Como sempre.

* Herbie Hancock (5:58) in 'Finest in Jazz'

8/01/2007

Summer Night*





















Joan Miró - Summer





Não gosto do Verão. Do quente intenso dos dias. Do ar difícil de respirar. Mas gosto do Verão. Da vastidão dos dias. Das profundas estrelas saídas das noites.


* Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Gary Peacock (7:38) in 'Tokyo'96'

7/20/2007

Brilliant Corners*















Anselm Kiefer - Zweistromland

O Jazz nasceu à beira de um abismo. O corpo em situação extrema a descobrir a alma. Não a alma pendurada numa parede do museu teológico, mas a psique aprisionada nas masmorras da santa sé da moral que se liberta no grito que o homem lança no limiar do abismo. O grito é o orgasmo: o Jazz. É neste sentido que se pode falar de um erotismo do Jazz: a escalada de psique para eros. Escalada, apenas. Nunca o ponto de repouso da chegada. Por isso o Jazz é tensão, estirada, dor agudíssima, os ingredientes que elaboram o orgasmo em suspensão. Por isso o Jazz não é terminal, recusa-se a um fim, continua mesmo quando acaba. É fome de amor que se alimenta da insatisfação. Por isso no Jazz se abre o leque dos sons com que a lost generation ventilou o seu rosto afogueado pelo último Verão do mundo. Poesia sem letras, magia sem esperança, assembleia de bacantes na festa do descobridor da vinha, limando as unhas para arrancar olhos aos usurpadores do sonho. Porque no Jazz o que importa, acima de tudo, é não acordar!

[Natália Correia - tirado daqui]


*Thelonious Monk (7:47) in 'Brilliant Corners'

7/16/2007

Hello Dolly*
















O meu boneco, imensamente favorecido - por João Tavares







Se eu fosse um desenho animado, era certamente uma figura simpática como esta. Só faria coisas boas. Nunca me arrependeria de nada. Teria um ganchinho permanente a segurar-me a franja e um jornal debaixo do braço, onde se leriam apenas notícias extraordinárias. Se eu fosse um boneco animado a minha vida seria mais verdadeira. E eu muito melhor pessoa. Pelo menos, não teria medo.


* Louis Armstrong (2:27) in 'Hello Dolly'

7/12/2007

Perdido*

















Salvador Dalí - Destino

Pois que por vezes me parece que ando perdida numa espécie de twilight zone da qual me é impossível sair. Uma espécie de vida surreal. Como um desenho animado. Esta vida que vivo não pode, com frequência acho, ser a minha vida de facto. Há demasiadas personagens surreais. Algumas nem existem. Ou talvez existam. Mas precisem de ser reinventadas.

* Duke Ellington (2:09) in 'Duke Ellington 1969: All-Star White House Tribute'

7/10/2007

All My Tomorrows*
















Wassily Kandinsky - Black Spot

Amanhã. Amanhã mesmo começarei a empurrar-te para um grande buraco negro.

*Shirley Horn (6:22) in 'You Won't Forget Me'

6/29/2007

In The Mood*






















Jerry Clovis - Jazz Party II




Que daqui a dois anos, as razões para celebrar continuem! Obrigada aos visitantes que aqui assistem às minhas misérias e grandezas. Ao que sinto e ao que penso. Ao que sou. Obrigada por partilharem comigo os sons de jazz que tanto prazer me dão. O resto importa menos. Ou muito pouco. A música é o mais importante. A beleza da música.


* Glenn Miller and his Army Airforce Band (3:48) in 'Glenn Miller and His Army Airforce Band'

6/22/2007

Take Five*















Gustav Klimt - Macieira




Satisfazer a curiosidade da
IO não é difícil. Costumo acorrentar-me aos livros e viajar por dentro deles. Até aos sentidos.
E então, toma lá cinco:
agora leio Um, nenhum e cem mil de Luigi Pirandello. Depois vou ler, talvez não por esta ordem e talvez outros se me imponham entretanto... Seize the Day de Saul Bellow, A herança do vazio de Kiran Desai, Combateremos a sombra de Lídia Jorge e Na praia de Chesil de Ian McEwan.
E depois. Estamos no Verão. E eu no Verão estreito as correntes com as palavras dos outros. O Verão é uma boa altura para viajar assim.

* Herbie Hancock & Quincy Jones (3:35) in 'Walk on the Wild Side'



6/20/2007

Come Fly With Me*



















Jackson Pollock - Galaxy


As comemorações continuam. Porque há na música um universo de sentidos que deve ser celebrado.

* Count Basie Orchestra (3:03) in 'Frankly Basie: Count Basie Plays the Hits of Frank Sinatra'