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Paula Rego - sem título, da série sobre o aborto
Paula Rego - triptico sem título, da série sobre o aborto É capaz que ainda alguém acredite que a interrupção voluntária da gravidez, porque é voluntária, alguma vez foi feita com vontade por alguma mulher.É capaz que ainda alguém acredite que abortar é um acto irreflectido e fácil, para quem toma a decisão de o fazer.É capaz que ainda alguém acredite que o direito a uma vida sem condições se deve sobrepôr ao direito a uma vida com dignidade.É capaz que ainda alguém acredite que o corpo de uma mulher não é propriedade sua.É capaz que ainda alguém acredite que os milhares de mulheres que, todos os anos, abortam clandestinamente em Portugal, deviam ser condenadas.É capaz que ainda alguém acredite que os milhares de mulheres que, todos os anos, morrem em consequência de um aborto clandestino, não mereciam outra sorte.É capaz.É capaz que, depois do próximo dia 19 de Outubro, a hipocrisia se mantenha e continue, como quase tudo o resto, a envergonhar-me de ser portuguesa. É capaz. *Marty Ehrlich (5:15) in 'Song'
Nunca havia pensado nele. Assim, azedo. Assim rancoroso e triste. Assim precipitado em julgamentos. Julgando-se, por isso, livre. Julgando-a a ela, por isso, menos livre. Nunca havia pensado nele, assim, azedo e fechado numa dor de que não compreende a razão. Nunca lhe havia prometido nada. Pensou, por momentos, nas conversas e nos gestos. Não houve promessa. Sim, De certeza que não lhe prometeu nada. Não? Então porquê este rancor que agora sentia dirigido a si? Talvez tenha sido pouco clara, pensou. Desde o início. Talvez quando tentou explicar-lhe as razões de como e porquê o queria e de como e porquê não podia quere-lo… talvez tivesse sido pouco clara. Foi de certeza isto. Agora recebe aquela carta e tenta perceber as razões dele para o azedume e as ofensas. As acusações e os julgamentos. Decide responder-lhe apenas: tudo como queiras.
Não vale a pena, pensa, fomentar mais amarguras. Não vale a pena responder-lhe mais. Há música em toda a parte. Uma música nele que ela desconhecia. Uma música nela, descobre agora mesmo ligeiramente aterrada, que o inclina para a tristeza. Para a tristeza, também nela, por todas as danças que (já não) serão dançadas.
* Marty Elhrich (5:04) in ‘Song’