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11/19/2008

Almost Blue*





Cy Twombly - Blue Room

uma terrível palavra. quase.


* Chet Baker (7:46) in ' Almost Blue: Live in Paris & Tokyo'

9/26/2006

It's All In The Game*














Grafitti numa parede de Portalegre, Agosto de 2006


Diz-me o Carlos que eu sou capaz de dizer seis (mais seis?) coisas sobre mim. Duvido que saiba seis (mais seis?) coisas sobre mim. Ou mesmo que essas seis (mais seis?) coisas sobre mim sejam verdade. Eu sou uma mentira que fala sempre verdade (era Cocteau quem dizia isto?). As verdades são sempre duras...it's all in the game:

1. Gosto de fumar. Muito. Talvez seja certo que morrerei de cancro. E eu tenho medo de morrer. Mas acendo um cigarro e mesmo as coisas que sei de mim me parecem mais suportáveis e por isso sigo Fumando*


* Chano Domínguez (4:03) in 'Iman'

2. Às vezes apaixono-me violentamente pelas pessoas, ainda que, em geral, não goste muito delas. É um pouco triste esta coisa que sei de mim, mas sim I Fall In Love Too Easily (I Fall in Love Too Fast)*


* Chet Baker (3:18) in 'My Funny Valentine'

3. Diz Enrique Vila-Matas quando viajas só, o estranho és sempre tu. Ainda assim estranhamente, gosto muito de viajar. Sózinha. Ou seja, Travelin' All Alone*


* Billie Holiday (2:15) in 'Lady Day'

4. Eu tenho a mania que sou grande, mas na verdade sou muito pequena. E com tendência para a melancolia. Basicamente uma Little Girl Blue*


* Diana Krall (5:38) in 'From This Moment On'

ou (como sempre)

* em versão Nina Simone (4:12 ) in 'Little Girl Blue'

5. Embora às vezes diga nunca mais, eu olho para as coisas a seguir como se fosse sempre a primeira vez e sim, acredito sempre que This Could Be The Start Of Something*


*Oscar Peterson (4:43) in 'Night Train'

6. Eu tenho medo. Mas digo sempre que não. Medo de morrer. Por exemplo. E então eu canto. Canto só para saber que ainda estou viva... ou numa muito melhor versão I Sing Just to Know I Am Alive*


* Nina Simone (1:12 ) in 'My Baby Just Cares for Me'

Em suma, sei seis (mais seis) coisas sobre mim. Sei por exemplo (embora não possa por aqui a música) que Mon coeur est rouge (Keith Jarrett, digamos... em Nápoles, em 1996). E acho que sabendo isso nem seria preciso saber mais nada. Mas (mais) seis coisas são sempre um bom pretexto para ouvir (mais) música.

E agora BlahBlah e tu? TalvezMeEscrevas seis coisas sobre ti?

E agora Luís e tu? Seis coisas da tua Natureza do Mal?


* Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Gary Peacock (6:47 ) in 'The-Out-of-Towners

5/28/2006

Alone Together*















Gustav Klimt - Death and Life

Os mortos nada sabem, porque já nada podem saber. Da morte não se regressa.
Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos (nos) sabem
(certamente à força de tanto querermos que saibam).

Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos regressam
(certamente à força de tanto querermos que regressem).

Não há regresso nem conhecimento para os mortos
(mesmo se, às vezes, parece que ainda há quem nos (re)conheça, estando morto).

Morreste(me). E já não podes saber nada de quem sou
(se nem eu sei!).

Já não podes saber que é a ti que procuro quando só outros encontro. Outros que não estão mortos
(mas, na verdade, tanto me fazia se estivessem).

Já não podes voltar(te) quando te chamo
(porque preciso de ti)
às vezes com o desespero de precisar só da tua mão percorrendo o meu cabelo. Outras vezes com o brutal desejo dos teus braços. E, raramente, com a certeza de que me ampararias as lágrimas.

Disfarço. Que a morte assusta os vivos. Os nossos mortos assustam-nos os vivos. E, assim sendo, para que ninguém se assuste, disfarço
(está este calor dissolvente e os mosquitos agrupam-se no vidro, na expectativa da luz).

Morreste(me) e não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que te esqueço quando procuro e, por vezes encontro, outros braços, outros corpos, outros que (me) encontram quando, por vezes, procuram. Não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que não é a ti (e só a ti) que sigo querendo
(na expectativa da luz).

Disfarço.
(um mosquito entra dentro do quarto demasiado quente, apesar da janela fechada. Há sempre pequenas brechas para quem procura. A luz)
e mesmo assim. Nos percursos diários. As pessoas revelam-me o que, embora vivas, desconhecem. Estás com bom ar. Estás mais bonita. Que tens andado a fazer?
(A cabra! Com melhor ar! Mais bonita! Do que o antes da tua morte!).

Disfarço. Nos percursos diários. Revelam-me o que (ainda) não se sabe.

O que ainda se desconhece é que morrendo, me mataste
(e, já se sabe, aos olhos dos vivos, os mortos serão sempre mais bonitos do que alguma vez foram em vida).

Os vivos desconhecem que disfarço a vida. Que estou morta da tua morte. Que morri a morte que morreste
(na expectativa da luz)
e que cuidaste, talvez, só tua.

Os vivos desconhecem que nada sei já também. Porque nada posso já saber. Não posso regressar da (tua) morte.
Mesmo se, às vezes, parece que sei
(A cabra!)

Mesmo se, às vezes, procuro regressar
(com melhor ar! E mais bonita! Que andará a fazer?)
na expectativa da luz.

* Brad Mehldau, Lee Konitz e Charlie Haden (13:45) in ‘Alone Together’

E porque existem muitas versões, escolho também estas com que disfarço a vida. Ou a morte. Tanto faz:

Miles Davis (7:20) in 'Blue Moods'


Chet Baker (6:46) in 'Chet'


Wallace Roney (8:54) in ‘Alone Together: Essential Late Night Jazz’


4/06/2006

Someone To Watch Over Me*









Anselm Kiefer - girassois

Olha. Vem ouvir(me). Estava perdida num campo de girassois. Para sempre. Ouve(me). Não sei como me encontraste. Mas vieste. A realidade. Deixou de ser importante. E tu vieste. Num campo de girassois. Quem anda perdido. Raramente se encontra. Demasiadas distracções. Ou assim. Quem anda perdido. Raramente encontra. Quer dizer. Precisa que o encontrem. De tanto (não) andar à procura. Ou assim. E tu chegaste. Não sei de onde vieste. Deixou de ser importante. Tudo. Qualquer coisa. Desapareceu. Porque quando vieste. Para me encontrar. Devolveste-me o que eu desconhecia. De mim. Esta vontade irracional. De me fechar numa caixa. Ou assim. Só. Para que tomes. Conta. De mim.

* Chet Baker (3:03) in 'My Funny Valentine'

7/28/2005

Broken Wing*











Edward Steichen, Across the salt marshes, Huntington, 1905


Sonhei ou estou acordado? Vejo o tempo em que
passeávamos por aquele jardim. Só nosso. A floresta de
encantamentos. Movíamo-nos e a floresta avançava
connosco. Era pelo entardecer. A lua uma pluma no teu
colo. Um dia morreste para eu poder tocar-te o rosto.
Depois trocámos gasosas embrulhadas em papel de
jornal. Bebedeiras na macieza da relva. Sangue
derramado em afagos, mil braços abandonados. Mantras
em que nossos olhos se penetraram até não sabermos
onde. Luzeiros em que nos amamentámos. Idades
esquecidas. E sobreveio a noite. Cerrada. Estonteada.
A verdade é que as parras caíram. E com a libido às
costas, foi uma escalada purpurina. Até desaparecermos
esgotados no laborioso poço do sono.

Texto de C.S.A.

* Chet Baker (10:08) in 'Chet Baker in Tokyo'

7/02/2005

My Funny Valentine*




"My Funny Valentine", de Rogers e Hart, será apenas mais uma canção de desespero. Mas é uma canção de amor como poucas canções de amor. Por isso só podia ser uma balada. Gosto de todas as versões que conheço, vá-se lá saber porquê. A de Miles, inconfundível, e a do Chet, tão triste e indefesa. A do Sinatra. A da Nico, estranhíssima, mas também a do Costello, patética naquela voz de cana rachada. E a da Ella? E a da Sarah? Mais a do Ornette. A de Ricky Lee Jones. A do Van Morrison. Existe até uma versão de Aznavour e outra do Sammy Davis Jr.! "Love for all seasons", como diria alguém. Em todas as vozes, ou mesmo sem voz, num murmúrio, em scat, entre dentes, num assobio, existe um desejo de amor que se desprende. E que tocamos ao de leve sempre que queremos mais e não temos mais. Amor, claro. "But don't change your hair for me / Not if you care for me / Stay little valentine, stay!"

Texto de RB

* escolhi, de entre tantas possíveis, uma das versões de Chet Baker (2:15) in 'My Funny Valentine'