8/11/2007

First Trip*




















Vincent Van Gogh - Sunflowers




Todas as viagens são as primeiras. Agora vou-me embora. Pela primeira vez. Como sempre. Intermitentemente virei olhar. Ouvir. Mas os olhos farão outras viagens. Até aos girassóis de Van Gogh, por exemplo. Em Setembro volto. Pela primeira vez. Como sempre.

* Herbie Hancock (5:58) in 'Finest in Jazz'

8/01/2007

Summer Night*





















Joan Miró - Summer





Não gosto do Verão. Do quente intenso dos dias. Do ar difícil de respirar. Mas gosto do Verão. Da vastidão dos dias. Das profundas estrelas saídas das noites.


* Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Gary Peacock (7:38) in 'Tokyo'96'

7/20/2007

Brilliant Corners*















Anselm Kiefer - Zweistromland

O Jazz nasceu à beira de um abismo. O corpo em situação extrema a descobrir a alma. Não a alma pendurada numa parede do museu teológico, mas a psique aprisionada nas masmorras da santa sé da moral que se liberta no grito que o homem lança no limiar do abismo. O grito é o orgasmo: o Jazz. É neste sentido que se pode falar de um erotismo do Jazz: a escalada de psique para eros. Escalada, apenas. Nunca o ponto de repouso da chegada. Por isso o Jazz é tensão, estirada, dor agudíssima, os ingredientes que elaboram o orgasmo em suspensão. Por isso o Jazz não é terminal, recusa-se a um fim, continua mesmo quando acaba. É fome de amor que se alimenta da insatisfação. Por isso no Jazz se abre o leque dos sons com que a lost generation ventilou o seu rosto afogueado pelo último Verão do mundo. Poesia sem letras, magia sem esperança, assembleia de bacantes na festa do descobridor da vinha, limando as unhas para arrancar olhos aos usurpadores do sonho. Porque no Jazz o que importa, acima de tudo, é não acordar!

[Natália Correia - tirado daqui]


*Thelonious Monk (7:47) in 'Brilliant Corners'

7/16/2007

Hello Dolly*
















O meu boneco, imensamente favorecido - por João Tavares







Se eu fosse um desenho animado, era certamente uma figura simpática como esta. Só faria coisas boas. Nunca me arrependeria de nada. Teria um ganchinho permanente a segurar-me a franja e um jornal debaixo do braço, onde se leriam apenas notícias extraordinárias. Se eu fosse um boneco animado a minha vida seria mais verdadeira. E eu muito melhor pessoa. Pelo menos, não teria medo.


* Louis Armstrong (2:27) in 'Hello Dolly'

7/12/2007

Perdido*

















Salvador Dalí - Destino

Pois que por vezes me parece que ando perdida numa espécie de twilight zone da qual me é impossível sair. Uma espécie de vida surreal. Como um desenho animado. Esta vida que vivo não pode, com frequência acho, ser a minha vida de facto. Há demasiadas personagens surreais. Algumas nem existem. Ou talvez existam. Mas precisem de ser reinventadas.

* Duke Ellington (2:09) in 'Duke Ellington 1969: All-Star White House Tribute'

7/10/2007

All My Tomorrows*
















Wassily Kandinsky - Black Spot

Amanhã. Amanhã mesmo começarei a empurrar-te para um grande buraco negro.

*Shirley Horn (6:22) in 'You Won't Forget Me'

6/29/2007

In The Mood*






















Jerry Clovis - Jazz Party II




Que daqui a dois anos, as razões para celebrar continuem! Obrigada aos visitantes que aqui assistem às minhas misérias e grandezas. Ao que sinto e ao que penso. Ao que sou. Obrigada por partilharem comigo os sons de jazz que tanto prazer me dão. O resto importa menos. Ou muito pouco. A música é o mais importante. A beleza da música.


* Glenn Miller and his Army Airforce Band (3:48) in 'Glenn Miller and His Army Airforce Band'

6/22/2007

Take Five*















Gustav Klimt - Macieira




Satisfazer a curiosidade da
IO não é difícil. Costumo acorrentar-me aos livros e viajar por dentro deles. Até aos sentidos.
E então, toma lá cinco:
agora leio Um, nenhum e cem mil de Luigi Pirandello. Depois vou ler, talvez não por esta ordem e talvez outros se me imponham entretanto... Seize the Day de Saul Bellow, A herança do vazio de Kiran Desai, Combateremos a sombra de Lídia Jorge e Na praia de Chesil de Ian McEwan.
E depois. Estamos no Verão. E eu no Verão estreito as correntes com as palavras dos outros. O Verão é uma boa altura para viajar assim.

* Herbie Hancock & Quincy Jones (3:35) in 'Walk on the Wild Side'



6/20/2007

Come Fly With Me*



















Jackson Pollock - Galaxy


As comemorações continuam. Porque há na música um universo de sentidos que deve ser celebrado.

* Count Basie Orchestra (3:03) in 'Frankly Basie: Count Basie Plays the Hits of Frank Sinatra'

6/18/2007

Dream a Little Dream of Me*














Pablo Picasso - Mulher de Cabelos Amarelos


Um pequeno desejo. Um vagaroso sonho. Gosto de pensar neste lugar como um lugar onde a mansidão que há em todas as coisas belas se concentra. Um lugar de sentidos**.

* Ella Fitzgerald & Louis Armstrong (3:07) in 'Ella Fitzgerald and Louis Armstrong for Lovers'

** Assim se iniciam as comemorações dos dois anos deste blog. Até 29/6 haverá mais música, mais quadros. Mais sentidos.

6/12/2007

Half The Perfect World*

















Roy Lichtenstein

Às vezes, sem darmos muito por isso, o mundo pode ser perfeito. Não fossem os relógios e os minutos que passam muito devagarinho, até chegares.

* Madeleine Peyroux (4:20) in 'Half the Perfect World'

5/28/2007

Just As I Am*




















Ann Baldwin - Blue Note

Uma. Pequeníssima. Nota. Imperfeita.

* Chris Potter (3:37) in 'Traveling Mercies'

5/17/2007

Clues*















Anselm Kiefer - Eridanus

Isto é uma não resposta. Que eu não estou para ser provocada**. Tudo desconheço sobre essa arte aparentemente fácil, mas verdadeiramente difícil, de sair de si e deixar aos outros qualquer coisa. Deixamos vestígios. Aqui e ali. Espalhados para que alguém os agarre e os tome como seus. Um dos meus, bem podia ser este (mas provavelmente são outros quaisquer): o que é preciso é dar lugar aos pássaros nas ruas da cidade (Ruy Belo).

E se é para passar adiante, passo, comme d'habitude ao Luís d' A Natureza do Mal, à Sandra do Tubo de Ensaio, ao Henrique do Insónia e gostava de ver que vestígios é que acha que pode já deixar um miúdo de 22 anos e por isso passo também ao Paulo do Paraíso na Outra Esquina.

* Patricia Barber (4:58) in 'Verse'

** Um "meme" é um " gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma"

5/11/2007

Be My Love*




















Joan Miró - Dancer II


Podia ser um pedido. Até uma súplica. Mas não é isso. Ou nada é. A não ser. O reconhecimento da incrível beleza que há nas coisas. Incluindo no amor. Ou. Sobretudo. No amor. Podia ser um pedido. Mas nada é. Porque nada existe para além da beleza que existe. Nas coisas. Sobretudo. Nas coisas. Do amor.

* Keith Jarrett (5:38) in ' The Melody at Night, With You'

4/25/2007

Free for All*





















Maria Helena Vieira da Silva


Sempre!

* Dave Holland Quintet (10:18) in 'Extended Play: Live at Birdland
'

4/22/2007

Beautiful Land*












A Terra vista do espaço, com estrelas


Neste dia, é preciso lembrar que «a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo»**

* Nina Simone (1:58) in 'I Put a Spell on You'

** António Ramos Rosa

4/12/2007

Reactionary Tango*
















Paula Rego - A Dança

A outros acontecerá de outras maneiras. Mas eu tornei-me socióloga assim. A gostar de observar a dança das pessoas. A tentar descobrir porque dançam. Aquilo que as faz dançar. Ou não. Na altura da minha decisão pelos estudos sociais eu gostava de fazer peoplespotting**. Ainda gosto.

* Carla Bley (12:54) in 'Social Studies'

** peoplespotting que eu saiba é uma designação que não existe... Usei a palavra Trainspotting como base. Trainspotting além de ser o título de um filme de Danny Boyle e de um livro de Irvine Welsh, é um hábito (ao que dizem) britânico de observar os comboios.

4/02/2007

Landscape for Future Earth*

















Václav Mach-Kolacny - Alice in a world behind a mirror

O importante são esses pequenos gestos perfeitos, com que atravessamos espelhos

*Keith Jarrett (3:34) in 'Facing You'

3/19/2007

Mother Nature's Blues*












Pablo Picasso - Le Printemps

Tudo recomeça. Mesmo o que se perdeu. Os teus olhos, por exemplo. Hão-de recomeçar agora. Como se fossem novos. E por isso, sem medo. Como se fosse outra vez primavera e tudo o que há na natureza recomeçasse a sua dança exuberante. Tudo se re(a)corda. No novo começar.

* Sonny Rollins (11:32) in 'Global Warming'

3/08/2007

Indiferença*

















Paula Rego - Mulher-Cão

É com indiferença que, frequentemente, passamos este dia. Esquecendo, também frequentemente, que sob qualquer das suas formas a violência contra as mulheres é ainda a mais frequente violação dos direitos humanos no mundo.

*Bernardo Sassetti; Rui Rosa; Yuri Daniel (4:51) in 'Alice'