8/10/2006

Eu sei que vou te amar*













Juan Miró - Cifras y constelaciones en amor con una mujer

Ho incontrato un pianista che suona molto bene ed a cui piacciono le stelle...

..por isso roubei-lhe esta música. Que ele parece tocar apenas com o céu cheio de estrelas por companhia.

Grazie per tutta la tua musica, F.

*Quoyle (6:06) Round About Midnight

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida
Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

(Vinicius de Moraes/Tom Jobim)

8/07/2006

Saudades*








Jackson Pollock - The Key



Saudades. Muitas. E só de ti. Mas quem és tu? Serás aquele que primeiro amei. Ou o outro, que primeiro me amou? Ou aquele com quem vivi. Ou aquele que viveu comigo? Serás quem amo ainda. Ou quem já abandonei há muitas horas? Serás quem me ateia os incêndios nocturnos. Ou aquele que os apaga em gestos suaves? Serás aquele que expulsei da minha casa. Ou quem a mim me expulsou? Serás quem me ensinou a ler um corpo. Ou aquele que aprendeu comigo o alfabeto da lingua vagarosa sobre a pele? Serás o que matou ou quem matei? Quem és tu, de quem sinto estas saudades muitas? Tantas como quem deixou um mundo de coisas abertas na vida e perdeu as chaves no caminho.

*Trio Beyond: Jack DeJonhette, Larry Goldings; John Scofield (10:46) in 'Saudades'

7/31/2006

Light in the Morning (Many Thousand Gone)*










Salvador Dalí - Face of the War


Posso chamar-me, hoje, Hassan, ter oito anos e estar morto. Amanhã. Ou mesmo agora. Não ver já a luz da manhã. Amanhã. Ouvir, hoje, apenas os gemidos dos que morrem ao meu lado, debaixo das pedras. Posso hoje chamar-me Hassan e ser apenas uma criança. Estar morto. Agora mesmo. Ou amanhã. Quem se importa que eu tenha oito anos, me chame Hassan e amanhã já não tenha olhos para ver a luz da manhã?

* Marty Ehrlich Sextet (9:56) in 'News on the Rail '

7/20/2006

Strange Fruit*














Maya Kulenovic - Great War**

«Esvaziámos os lugares da matança, retirando-lhes o peso dos nossos mortos»
E os nossos mortos serão sempre mais pesados que os mortos dos outros. Por isso esvaziamos os lugares da guerra do seu peso. Em troca deixamos frutos estranhos, carne queimada e uma colheita de horrores. E não temos vergonha. Continuamos a não ter vergonha. O vento varre-a juntamente com os corpos de centenas de homens, mulheres e crianças que tiveram a pouca sorte de não serem 'nossos'.

* Billie Holiday (3:05) in 'Lady Sings the Blues: The Billie Holiday Story, Vol. 4'

«Southern trees bear a strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black body swinging in the Southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolia sweet and fresh,
And the sudden smell of burning flesh!

Here is a fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for a tree to drop,

Here is a strange and bitter crop» **

**Outros contextos mas, no essencial, pouco diversos.

7/16/2006

Mediolistic*














Henri Matisse - Icarus - quadro VIII da série Jazz

Afinal. O que importa é a música. O jazz. O azul. Noite. As estrelas. Dançar, mesmo que se não saiba. E o coração no lugar certo. Não desfeito. Não nas mãos. Mas dentro do peito. O coração que é apenas o coração. Não uma qualquer metáfora para devaneios da cabeça. O coração que faz a sua parte. Bombear o sangue. Bater para viver o que importa. A música. O jazz. A noite. O azul. As estrelas. E as palavras.

*Al Cohn & Zoot Sims (3:29) in 'From A to Z'

7/11/2006

Feeling Good*















René Magritte - L'Art de Vivre

O sol na cabeça. Ter o sol. Na cabeça. Ou a cabeça no sol. De qualquer modo, viajar muito alto. Muito longe. Na cabeça. Com o sol. Sinto-me tão bem. Tão viva. Tão despojada das minhas costumeiras angústias que me apetece gostar do sol. Ter a cabeça no sol. Ou o sol na cabeça. Até queimar o passado todo. O passado que está morto. Que já passou. Que já não interessa. Só o sol. E a viagem. O momento da viagem. Ou cada momento da viagem. Muito alto. Muito longe. Interessa. Não o passado. Ou o futuro. Talvez nem o presente interesse. Apenas a sensação de estar viva. De escrever ao sol. Na cabeça.

* Nina Simone (2:54) in 'Feeling Good'

7/07/2006

Alegria Callada*














Sebastião Salgado - San Juan, 1979


Hoje tenho sete anos. Ainda sinto as mãos da minha mãe a entrançar os meus cabelos. Hoje tenho sete anos e borboletas na barriga. Borboletas iguais, nas cores, aos laços que a minha mãe me põe na ponta das tranças. Hoje tenho sete anos e tenho pressa. As mãos da minha mãe nos cabelos e pressa. De te encontrar sentado contra o tempo. No jardim em frente aos prédios. Na praceta da minha infância. Tenho sete anos e saio de casa a correr. Tenho sete anos e posso brincar na rua. Tenho sete anos e uma cara perfeita. Como os anjos. Tenho sete anos e a minha cara ainda não partiu numa direcção indistinta. Saio de casa a correr. Para o jardim em frente aos prédios. Páro. Com um pé atrás do outro. A sentir as asas das borboletas às voltas na barriga. Páro. Porque te vejo sentado no balouço, com o saco dos berlindes a cair-te da mão direita. Avanço um bocadinho. Avanço tudo, com a minha cara perfeita como a dos anjos. Tenho sete anos e tenho pressa. Pergunto-te - e as asas já não voam, golpeiam - queres brincar comigo? #

* Chano Domínguez (6:59) in 'Iman'

# texto publicado antes, sem banda sonora e com o título Asas e Golpes, no blog entretanto extinto - Pilar da Ponte de Tédio

6/29/2006

Anything Goes*










Juan Miró -Mujer soñando la evásion


Hoje este blog faz um ano. Este blog é sobretudo o jazz. É azul. Mas nem sempre é triste. Às vezes é. Como a vida e tudo mais. Está tudo azul. Ouve-se jazz. Um deus passeia-se comigo pela brisa das tardes**. E aqui dentro há uma espécie de calma reconciliação com tudo o que fui, sou, serei.

* Brad Mehldau Trio (7:07) in 'Anything Goes'

** Descaradamente baseada no título do livro de Mário de Carvalho - Um Deus Passeando na Brisa da Tarde

6/20/2006

Laughing At Life*










Salvador Dalí - Paysage aux Papillons

«Bad, mad and dangerous to know».
Gostei tanto desta definição, Carlos, que te dedico este sorriso da Billie. Enquanto eu mesma sorrio. As borboletas estão só na paisagem. Que é seguramente um local adequado às borboletas, quando se anuncia o verão.

* Billie Holiday (2:54) in 'The Lady Sings'

6/19/2006

Parallels*

















Jackson Pollock - Male and Female


Viveremos. É verdade. Que viveremos. Tu contra o que te dei. Eu a favor de quanto me ofereceste. Paralelos. Viveremos. Como duas linhas que jamais se encontrarão. Tendo-se já encontrado. Como duas margens de um rio. Juntas na nascente. Mas depois. Transportando a água. Para outra água. Viveremos. Certamente. Viveremos. Afastados da nascente. Velozmente. Procurando. Outra água.
Não sei onde te perdeste dos meus olhos, se ainda os tenho. Não sei onde te desencontraste das minhas mãos, se ainda são minhas. Não sei onde te esqueceste do meu corpo, se ainda o sinto. Não sei onde deixaste a minha boca. Se ainda a tenho aberta à espera dos teus dedos. Um por um. Não sei para onde foste, se ainda aqui te encontro. Mas creio saber que te vestiste. E mesmo assim. Entraste. Nessa outra água que não transporto. Enquanto eu continuo nua. Nua como quando foste tu que me vestiste. Mas de gestos. Nua como quando também estavas nu. Como quando nascíamos da mesma água e nos fazíamos dançar. Uma e outra vez. Como quando corríamos no mesmo rio. E não tínhamos margens a limitar a nossa dança. Nua à espera que regresses. Sabendo já que. Viveremos. Seguramente. Viveremos. Paralelos. Os meus olhos já esquecidos. As minhas mãos já sem magia. O meu corpo sendo apenas o meu corpo. A minha boca à procura da tua, na expectativa da água onde (nos) dançaríamos. Outra vez.

*Keith Jarret (4:58) 'Dark Intervals'

6/14/2006

Just Say I Love Him*















Paul Klee - Remembrance of a Garden

Quero dizer que o amo. Ainda. Não me custa amá-lo. Ainda. Nem não o ter. Como o tive. Completamente nu. Evidente. Não dele. Mas meu. Quero dizer que o amo. Ainda. A sua nudez. A sua evidência. Não me custa amá-lo. Apesar de não ser já meu. Não me custa amá-lo. Apesar de o ter deixado ir embora. Já tão vestido. Amo-o. Chove. E eu preciso dele. Apesar de já não o ter. Não me custa precisar dele. Chove. E eu preciso dele. Como as flores precisam da água que não nasce da terra, mas do céu. Quero dizer que o amo. Agora. Que ele caminha por outra cidade. Outra estrada. E já não é meu. Alguém o há-de ter. Como eu o tive. Alguém o verá dormir. Como um menino. Respirar. Como qualquer pessoa. Alguém o terá. Evidente. Nu. Sem ser dele. Mas quero dizer. Assim mesmo. Que o amo. Que preciso dele. Como as flores precisam da chuva. Quero dizer que me lembro. Do jardim que nascia nos seus olhos. Chove. Ninguém lhe dirá. Nem eu. Que ainda o amo. Porque não importa.

* Nina Simone (6:35) in 'Forbidden Fruit'

6/09/2006

Chair in the Sky*
















Pablo Picasso - Woman in an Armchair


Uma cadeira de braços. No céu. Ou a partir de onde eu imagine o céu. Com estrelas. Demasiadas. Um céu de inverno. Com improváveis estrelas. Frio. Uma cadeira de braços. E eu sentada nela. Tão intactos quanto possível. A cadeira. O céu. Uma intacta cadeira num intacto céu de inverno com estrelas de intacto brilho. Improváveis. E eu. Provavelmente desfragmentada. A esquizofrenia de que (ainda) não padeço porque a reconheço quando chega. Talvez já esteja nos braços da cadeira. À espera que eu me sente e tente. Reunir fragmentos do que sou e serei. E do que fui. Se. Um dia tiver uma cadeira de braços. Intacta num intacto céu de improváveis estrelas de brilho intacto. Acho que serei. Uma velha mulher. Apenas sentada numa cadeira. De braços. No céu.

* Mingus Big Band (9:05) in 'Live in Time' - Disco 2

6/05/2006

Que Pasa?*















Anselm Kiefer - Falling Stars


Nada. Não se passa nada. Absolutamente nada. Excepto só me apetecer estar dentro deste quadro de Kiefer. Deitada na erva. A olhar para o brilho das estrelas (o que me falta a mim) e não fazer nada. Absolutamente nada. Talvez pensar em ti. Perguntar às estrelas: Que pasa? E elas vão responder-me que te sentes assim feliz como eu. Por nada se passar. Por estar tudo bem. Por estares noutro sítio qualquer. Deitado noutra erva. A contemplar o brilho das estrelas. Não outras. Mas exactamente. Absolutamente as mesmas. Não se passa rigorosamente nada. E no entanto. É como se vivessemos a absoluta comunhão de tudo. Ainda. Na contemplação das estrelas. Na felicidade sossegada que é nada se passar. De podermos. Ainda. Embora cada um por seus caminhos. Deitarmo-nos na erva. E olhar para o brilho das estrelas. Com a cara toda.

* Horace Silver (7:47) in 'Song For My Father'

6/02/2006

All Right, Okay, You Win*

















Jackson Pollock - The Moon-Woman


Agora. A lua está tão crescente. E eu estou assim. A ver se não mirro. Agora. Vamos dar ritmo às estrelas. Esquecer que estão mortas. Agora. Só me apetece ser feliz. Deve ser destas noites carregadas de flor. Cobertas de cheiros. Agora. A mim também. Só me apetece estar em flor. Crescente de de dias claros. Grávida como as árvores de fruto. Coberta do cheiro das giestas e do jasmim. Deitar-me nua contigo nas ervas quentes. E fingir. Que estou na lua.

* Peggy Lee (2:53) in 'The Best of Miss Peggy Lee'

5/31/2006

Salt Peanuts*








Henri Matisse - Le Lanceur de Couteaux - quadro XV da série Jazz

Recolhimento parece ser a palavra chave para chegar ao céu. Recolhimento. Recato. Vergonha na cara. E na ponta dos dedos. As misérias pequeninas que vivemos não se expõem assim como roupa a pingar no arame. Sobretudo se a roupa estiver rota. Ou muito mal lavada. Não se expõem assim. Nem as misérias. Nem as felicidades. Nem as paixões. Nem a morte. Nem a vida, afinal, se expôe assim. Para se chegar ao céu. De alguns. Parece que o sofrimento exige silêncio. O amor implora contenção de palavras. E a vida só pode ser vivida segundo apurados princípios que não entendo. Até desconheço. Não sou mulher recatada. Nem recolhida. Faço um barulho do caraças por tudo e por nada. Não acho que a dor, ou o seu contrário, sejam tão nossas que não possam ser ditas. Isso deve fazer de mim uma péssima pessoa. Então sou. Essa pessoa péssima. Que ouve, por exemplo, esta música. E, ao mesmo tempo, tem o descaramento. A pouca-vergonha. De sofrer. E de dizer. Que sofre. Ou que ama. Ou que se apaixona. Ou que já não ama. Ou que se enganou ou a enganaram. Ou.
Sei que nada do que aqui se escreve - dor, misérias pequeninas, amores, desamores, paixões e vida - tem qualquer interesse.
Se alguma coisa tem interesse neste lugar não são as palavras. Mas a música.
De qualquer modo eu não acredito no céu
(a menos que o céu seja um lugar onde ninguém tenha morrido, onde se ouça sempre jazz, onde se possa beber uma guinness sossegadamente e onde ofereçam amendoins salgados).

* Bud Powell, Dizzie Gillespie, Charlie Parker, The Quintet, Max Roach (3:13) in 'Jazz at Massey Hall'

5/28/2006

Alone Together*















Gustav Klimt - Death and Life

Os mortos nada sabem, porque já nada podem saber. Da morte não se regressa.
Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos (nos) sabem
(certamente à força de tanto querermos que saibam).

Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos regressam
(certamente à força de tanto querermos que regressem).

Não há regresso nem conhecimento para os mortos
(mesmo se, às vezes, parece que ainda há quem nos (re)conheça, estando morto).

Morreste(me). E já não podes saber nada de quem sou
(se nem eu sei!).

Já não podes saber que é a ti que procuro quando só outros encontro. Outros que não estão mortos
(mas, na verdade, tanto me fazia se estivessem).

Já não podes voltar(te) quando te chamo
(porque preciso de ti)
às vezes com o desespero de precisar só da tua mão percorrendo o meu cabelo. Outras vezes com o brutal desejo dos teus braços. E, raramente, com a certeza de que me ampararias as lágrimas.

Disfarço. Que a morte assusta os vivos. Os nossos mortos assustam-nos os vivos. E, assim sendo, para que ninguém se assuste, disfarço
(está este calor dissolvente e os mosquitos agrupam-se no vidro, na expectativa da luz).

Morreste(me) e não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que te esqueço quando procuro e, por vezes encontro, outros braços, outros corpos, outros que (me) encontram quando, por vezes, procuram. Não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que não é a ti (e só a ti) que sigo querendo
(na expectativa da luz).

Disfarço.
(um mosquito entra dentro do quarto demasiado quente, apesar da janela fechada. Há sempre pequenas brechas para quem procura. A luz)
e mesmo assim. Nos percursos diários. As pessoas revelam-me o que, embora vivas, desconhecem. Estás com bom ar. Estás mais bonita. Que tens andado a fazer?
(A cabra! Com melhor ar! Mais bonita! Do que o antes da tua morte!).

Disfarço. Nos percursos diários. Revelam-me o que (ainda) não se sabe.

O que ainda se desconhece é que morrendo, me mataste
(e, já se sabe, aos olhos dos vivos, os mortos serão sempre mais bonitos do que alguma vez foram em vida).

Os vivos desconhecem que disfarço a vida. Que estou morta da tua morte. Que morri a morte que morreste
(na expectativa da luz)
e que cuidaste, talvez, só tua.

Os vivos desconhecem que nada sei já também. Porque nada posso já saber. Não posso regressar da (tua) morte.
Mesmo se, às vezes, parece que sei
(A cabra!)

Mesmo se, às vezes, procuro regressar
(com melhor ar! E mais bonita! Que andará a fazer?)
na expectativa da luz.

* Brad Mehldau, Lee Konitz e Charlie Haden (13:45) in ‘Alone Together’

E porque existem muitas versões, escolho também estas com que disfarço a vida. Ou a morte. Tanto faz:

Miles Davis (7:20) in 'Blue Moods'


Chet Baker (6:46) in 'Chet'


Wallace Roney (8:54) in ‘Alone Together: Essential Late Night Jazz’


5/23/2006

I Mean You*







H. Matisse - Le Destin - quadro XVI da série Jazz


Sou descrente no destino. No futuro traçado. Nas decisões tomadas como inabaláveis. Mas, por uma vez, gostaria de acreditar no destino. No futuro. Para ter a certeza. Para tomar a decisão. Inabalável. Para saber. Que estarás lá. Ou que estarás aqui. Ainda. Gostaria que este momento passasse depressa. E que o futuro não fosse assim um lugar tão longe. E tão inviolável. Por uma vez gostava de acreditar no destino. E nessas coisas assim. Para me desresponsabilizar do que foi feito. Do que foi dito. De todas as palavras que trocámos como se fossem animais selvagens em luta por um território. Por uma vez. Gostava de acreditar no destino. Para saber. Que mais tarde ou mais cedo. Uma esquina nos servirá de encontro. E que em ti haverá ainda qualquer coisa que me chama. Acreditar. Uma vez só. No futuro. E que um breve olhar nos devolverá ao princípio do que tem agora fim. Por um momento. Acreditar. Que as palavras que atirámos não foram pedras. Mas setas ao coração do silêncio. Ou da solidão. Por uma vez gostava que o destino estivesse traçado. Que houvesse um mapa do futuro. E que todas as estradas nos reconduzissem à primeira vez em que estivemos um no outro. Diluídos. Reencontrados. Sossegados.

*Art Blakey & The Jazz Messengers with Thelonious Monk (7:58) in 'Art Blakey's Jazz Messengers With Thelonious Monk'

5/18/2006

Now's The Time*












M.C. Escher -Mobius Strip

É tempo. Em tempo. De dar por perdido o tempo. Sabendo que haverá mais tempo. Para perder o tempo. Reencontrar o tempo. Ter tempo para ter tempo. Para isso existe o tempo. Para que se perca. Há um tempo perdido. Para ser esquecido. Há outro tempo. Também perdido. Que escondemos na memória. Para usar quando tivermos tempo. E lembrar. O tempo é aquilo que não nos cansamos de perder. Infinitamente.

* Miles Davis (3:17) in 'The Essential Miles Davis' - Disco 1

5/15/2006

I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes)*



Claro que vou andando. Muito bem. Bom, pelo menos o melhor possível. Excepto quando de repente o meu dedo indicador sente a falta das tuas sobrancelhas. Ou a minha língua pressente a ausência das tuas pestanas. Mas claro que vou andando. Muito bem. Ou pelo menos o melhor que posso. Excepto. Quando. Sem mais nem menos. Me esqueço de respirar. Porque me falta. O teu ar. Mas claro. Vou andando. Muito. Bem. Pelo menos. O melhor. Possível. Excepto quando toca o telefone. E não é a tua voz. Claro. Tal como disse. Vou andando sem ti. Muito bem. A menos que a manhã me lembre a ausência da tua cara na almofada. Ou o apito do comboio me revele a inutilidade de continuar na estação. Mas sim. Vou andando. Muito bem. Sem ti. Excepto às vezes. Mais concretamente quando murmuro. 'Amo-te'. E é apenas o silêncio. Dentro de mim. Que me responde. Mas então. Talvez eu deva. Não mais. Murmurar. Nunca. Nada.

* Nina Simone (4:56) in 'Nina Simone and Piano'

«I get along without you very well / Of course, I do / Except when soft rains fall / And drip from leaves then I recall / The thrill of being sheltered / In your arms / Of course, I do / But I get along without you very well / I’ve forgotten you / Just like I said I would /Of course, I have / Or maybe except when I hear your name / Someone’s laugh that’s just the same / I’ve forgotten you just like I should / What a guy / What a fool am I/ To think my aching hearth / Could keep the moon / What’s in store/ Should I phone once more /No, no, no, no, no / It’s best that I stick to my tune / I said that I get along / Without you very well / Of course, I do / Except perhaps in spring / But then I should never /Ever think of spring /For that would /Surely break my heart in two»

5/12/2006

Just in Time*









Salvador Dalí - The Persistence of Memory

Das palavras sobram mãos vazias. Olhos desfeitos no assombro. Boca suspensa no espanto. Das palavras sobra a sombra. Persistente. É possível. Porque tudo é possível. Escrever intensamente. Mesmo sem mãos. Sem olhos. Sem boca. É possível escrever. Intensamente. Mesmo sem sangue nas veias. Das palavras sobra a sombra. Fria. Um instante apenas. Em que nos esquecemos. Da memória. Talvez. Propositadamente. Para fingir. Ou acreditar. Tanto faz. Que além das palavras havia os gestos. E os olhos. E a boca. E as mãos. E o sangue. Das palavras assombrosas sobra a sombra. Uma sombra que se espalha. À medida que o sangue volta a ser o nosso. Uma sombra que se estende numa inundação de mágoa. Mas cresce. Mesmo a tempo. Do reencontro com a memória. Dos gestos lá atrás. De tal modo intensos. Que as palavras não lhes beberam o sangue. Mesmo a tempo. Recupera-se a memória. Mesmo a tempo. Respiramos. Mesmo a tempo. O sangue corre. Os olhos desassombram-se. A boca encontra o beijo. Os gestos voltam às mãos. Mesmo a tempo. Encontramos a memória. Mesmo a tempo. Perder-nos-emos. Outra vez.

* Sonny Rollins (3:55) in 'The Freelance Years: The Complete Riverside and Contemporary Recordings' - Disco 3