5/31/2006

Salt Peanuts*








Henri Matisse - Le Lanceur de Couteaux - quadro XV da série Jazz

Recolhimento parece ser a palavra chave para chegar ao céu. Recolhimento. Recato. Vergonha na cara. E na ponta dos dedos. As misérias pequeninas que vivemos não se expõem assim como roupa a pingar no arame. Sobretudo se a roupa estiver rota. Ou muito mal lavada. Não se expõem assim. Nem as misérias. Nem as felicidades. Nem as paixões. Nem a morte. Nem a vida, afinal, se expôe assim. Para se chegar ao céu. De alguns. Parece que o sofrimento exige silêncio. O amor implora contenção de palavras. E a vida só pode ser vivida segundo apurados princípios que não entendo. Até desconheço. Não sou mulher recatada. Nem recolhida. Faço um barulho do caraças por tudo e por nada. Não acho que a dor, ou o seu contrário, sejam tão nossas que não possam ser ditas. Isso deve fazer de mim uma péssima pessoa. Então sou. Essa pessoa péssima. Que ouve, por exemplo, esta música. E, ao mesmo tempo, tem o descaramento. A pouca-vergonha. De sofrer. E de dizer. Que sofre. Ou que ama. Ou que se apaixona. Ou que já não ama. Ou que se enganou ou a enganaram. Ou.
Sei que nada do que aqui se escreve - dor, misérias pequeninas, amores, desamores, paixões e vida - tem qualquer interesse.
Se alguma coisa tem interesse neste lugar não são as palavras. Mas a música.
De qualquer modo eu não acredito no céu
(a menos que o céu seja um lugar onde ninguém tenha morrido, onde se ouça sempre jazz, onde se possa beber uma guinness sossegadamente e onde ofereçam amendoins salgados).

* Bud Powell, Dizzie Gillespie, Charlie Parker, The Quintet, Max Roach (3:13) in 'Jazz at Massey Hall'

5/28/2006

Alone Together*















Gustav Klimt - Death and Life

Os mortos nada sabem, porque já nada podem saber. Da morte não se regressa.
Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos (nos) sabem
(certamente à força de tanto querermos que saibam).

Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos regressam
(certamente à força de tanto querermos que regressem).

Não há regresso nem conhecimento para os mortos
(mesmo se, às vezes, parece que ainda há quem nos (re)conheça, estando morto).

Morreste(me). E já não podes saber nada de quem sou
(se nem eu sei!).

Já não podes saber que é a ti que procuro quando só outros encontro. Outros que não estão mortos
(mas, na verdade, tanto me fazia se estivessem).

Já não podes voltar(te) quando te chamo
(porque preciso de ti)
às vezes com o desespero de precisar só da tua mão percorrendo o meu cabelo. Outras vezes com o brutal desejo dos teus braços. E, raramente, com a certeza de que me ampararias as lágrimas.

Disfarço. Que a morte assusta os vivos. Os nossos mortos assustam-nos os vivos. E, assim sendo, para que ninguém se assuste, disfarço
(está este calor dissolvente e os mosquitos agrupam-se no vidro, na expectativa da luz).

Morreste(me) e não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que te esqueço quando procuro e, por vezes encontro, outros braços, outros corpos, outros que (me) encontram quando, por vezes, procuram. Não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que não é a ti (e só a ti) que sigo querendo
(na expectativa da luz).

Disfarço.
(um mosquito entra dentro do quarto demasiado quente, apesar da janela fechada. Há sempre pequenas brechas para quem procura. A luz)
e mesmo assim. Nos percursos diários. As pessoas revelam-me o que, embora vivas, desconhecem. Estás com bom ar. Estás mais bonita. Que tens andado a fazer?
(A cabra! Com melhor ar! Mais bonita! Do que o antes da tua morte!).

Disfarço. Nos percursos diários. Revelam-me o que (ainda) não se sabe.

O que ainda se desconhece é que morrendo, me mataste
(e, já se sabe, aos olhos dos vivos, os mortos serão sempre mais bonitos do que alguma vez foram em vida).

Os vivos desconhecem que disfarço a vida. Que estou morta da tua morte. Que morri a morte que morreste
(na expectativa da luz)
e que cuidaste, talvez, só tua.

Os vivos desconhecem que nada sei já também. Porque nada posso já saber. Não posso regressar da (tua) morte.
Mesmo se, às vezes, parece que sei
(A cabra!)

Mesmo se, às vezes, procuro regressar
(com melhor ar! E mais bonita! Que andará a fazer?)
na expectativa da luz.

* Brad Mehldau, Lee Konitz e Charlie Haden (13:45) in ‘Alone Together’

E porque existem muitas versões, escolho também estas com que disfarço a vida. Ou a morte. Tanto faz:

Miles Davis (7:20) in 'Blue Moods'


Chet Baker (6:46) in 'Chet'


Wallace Roney (8:54) in ‘Alone Together: Essential Late Night Jazz’


5/23/2006

I Mean You*







H. Matisse - Le Destin - quadro XVI da série Jazz


Sou descrente no destino. No futuro traçado. Nas decisões tomadas como inabaláveis. Mas, por uma vez, gostaria de acreditar no destino. No futuro. Para ter a certeza. Para tomar a decisão. Inabalável. Para saber. Que estarás lá. Ou que estarás aqui. Ainda. Gostaria que este momento passasse depressa. E que o futuro não fosse assim um lugar tão longe. E tão inviolável. Por uma vez gostava de acreditar no destino. E nessas coisas assim. Para me desresponsabilizar do que foi feito. Do que foi dito. De todas as palavras que trocámos como se fossem animais selvagens em luta por um território. Por uma vez. Gostava de acreditar no destino. Para saber. Que mais tarde ou mais cedo. Uma esquina nos servirá de encontro. E que em ti haverá ainda qualquer coisa que me chama. Acreditar. Uma vez só. No futuro. E que um breve olhar nos devolverá ao princípio do que tem agora fim. Por um momento. Acreditar. Que as palavras que atirámos não foram pedras. Mas setas ao coração do silêncio. Ou da solidão. Por uma vez gostava que o destino estivesse traçado. Que houvesse um mapa do futuro. E que todas as estradas nos reconduzissem à primeira vez em que estivemos um no outro. Diluídos. Reencontrados. Sossegados.

*Art Blakey & The Jazz Messengers with Thelonious Monk (7:58) in 'Art Blakey's Jazz Messengers With Thelonious Monk'

5/18/2006

Now's The Time*












M.C. Escher -Mobius Strip

É tempo. Em tempo. De dar por perdido o tempo. Sabendo que haverá mais tempo. Para perder o tempo. Reencontrar o tempo. Ter tempo para ter tempo. Para isso existe o tempo. Para que se perca. Há um tempo perdido. Para ser esquecido. Há outro tempo. Também perdido. Que escondemos na memória. Para usar quando tivermos tempo. E lembrar. O tempo é aquilo que não nos cansamos de perder. Infinitamente.

* Miles Davis (3:17) in 'The Essential Miles Davis' - Disco 1

5/15/2006

I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes)*



Claro que vou andando. Muito bem. Bom, pelo menos o melhor possível. Excepto quando de repente o meu dedo indicador sente a falta das tuas sobrancelhas. Ou a minha língua pressente a ausência das tuas pestanas. Mas claro que vou andando. Muito bem. Ou pelo menos o melhor que posso. Excepto. Quando. Sem mais nem menos. Me esqueço de respirar. Porque me falta. O teu ar. Mas claro. Vou andando. Muito. Bem. Pelo menos. O melhor. Possível. Excepto quando toca o telefone. E não é a tua voz. Claro. Tal como disse. Vou andando sem ti. Muito bem. A menos que a manhã me lembre a ausência da tua cara na almofada. Ou o apito do comboio me revele a inutilidade de continuar na estação. Mas sim. Vou andando. Muito bem. Sem ti. Excepto às vezes. Mais concretamente quando murmuro. 'Amo-te'. E é apenas o silêncio. Dentro de mim. Que me responde. Mas então. Talvez eu deva. Não mais. Murmurar. Nunca. Nada.

* Nina Simone (4:56) in 'Nina Simone and Piano'

«I get along without you very well / Of course, I do / Except when soft rains fall / And drip from leaves then I recall / The thrill of being sheltered / In your arms / Of course, I do / But I get along without you very well / I’ve forgotten you / Just like I said I would /Of course, I have / Or maybe except when I hear your name / Someone’s laugh that’s just the same / I’ve forgotten you just like I should / What a guy / What a fool am I/ To think my aching hearth / Could keep the moon / What’s in store/ Should I phone once more /No, no, no, no, no / It’s best that I stick to my tune / I said that I get along / Without you very well / Of course, I do / Except perhaps in spring / But then I should never /Ever think of spring /For that would /Surely break my heart in two»

5/12/2006

Just in Time*









Salvador Dalí - The Persistence of Memory

Das palavras sobram mãos vazias. Olhos desfeitos no assombro. Boca suspensa no espanto. Das palavras sobra a sombra. Persistente. É possível. Porque tudo é possível. Escrever intensamente. Mesmo sem mãos. Sem olhos. Sem boca. É possível escrever. Intensamente. Mesmo sem sangue nas veias. Das palavras sobra a sombra. Fria. Um instante apenas. Em que nos esquecemos. Da memória. Talvez. Propositadamente. Para fingir. Ou acreditar. Tanto faz. Que além das palavras havia os gestos. E os olhos. E a boca. E as mãos. E o sangue. Das palavras assombrosas sobra a sombra. Uma sombra que se espalha. À medida que o sangue volta a ser o nosso. Uma sombra que se estende numa inundação de mágoa. Mas cresce. Mesmo a tempo. Do reencontro com a memória. Dos gestos lá atrás. De tal modo intensos. Que as palavras não lhes beberam o sangue. Mesmo a tempo. Recupera-se a memória. Mesmo a tempo. Respiramos. Mesmo a tempo. O sangue corre. Os olhos desassombram-se. A boca encontra o beijo. Os gestos voltam às mãos. Mesmo a tempo. Encontramos a memória. Mesmo a tempo. Perder-nos-emos. Outra vez.

* Sonny Rollins (3:55) in 'The Freelance Years: The Complete Riverside and Contemporary Recordings' - Disco 3

5/08/2006

So What*














René Magritte - The Unexpected Answer

Não era uma porta. Afinal. Era um coração. Quando um coração se fecha faz um barulho do caraças. Quando um coração se fecha faz um barulho i n s u p o r t á v e l. E eu à espera do buraco na porta. E eu à espera do buraco no coração. Eu. Que faço ainda eu aqui. Com este buraco cá dentro? Nenhuma resposta. Um coração fechado. Com muita força. Outro com um buraco. E depois? E então? Ninguém morreu dizem-me. Ninguém se feriu com gravidade. Repetem-me. Um acidente inconsequente, portanto. Lamentável. Mas. Ainda. Assim. Inconsequente. E depois? E então? A porta fecha. O coração fecha. O buraco há-de coser-se com linha grossa. A cicatriz ficará horrível, já se sabe. Mas ninguém morreu. Ninguém se feriu com gravidade. Voltam a repetir. Me. Bateu-se com a cabeça nas paredes. Com o carro contra uma árvore. Com a puta da existência contra o que de pior somos. A vida continua. Fácil e leve. Como sempre. E depois? E então? Ora. Há-de aparecer alguém. Numa curva lá mais para a frente. Alguém a quem se dará boleia. Alguém que. Quando te despires completamente. Verá a cicatriz horrível. Mas não te fará perguntas. Nem quererá respostas. Limitar-se-à a passar o dedo pelos altos da carne mal cerzida. E compreenderá os teus dias bons. Os teus dias (demasiado) maus. O teu lado do sol. E o teu lado (muito) escuro . Com sorte. Alguém que. Te descoserá a cicatriz e com linha de seda e mãos seguras te recuperará a pele. O coração. A porta. E depois? E então? Nada. É mesmo assim. Um coração quando se fecha faz um barulho indescritível. Quando se abre, o coração, é num silêncio absoluto e límpido. O silêncio com que estranhamente se aceitam as pessoas mortas. As pessoas feridas. As pessoas (des)conhecidas. Apesar de tudo.

* Miles Davis (9:25) in 'Kind of Blue'

5/05/2006

Chaos*













M.C. Escher - Illusion, an Ordered Confusion
Sossega. Te. Tudo tende para o caos. Até o que sentes. Ou. Principalmente. O que sentes. Não há calma. Mas sossega. Te. Sabes. Que. Quem é. Já foi. Quem foi. Volta a ser. Quem não é ou foi. Há-de ser. O que sentes talvez nem sequer já seja. Perdeu a importância. Não foi? Porque nem sabes o que sentes. Agora. Falas-me de raiva. E eu atiro-te com a paciência. Falas-me de banalização. Eu atiro-te com o sentido da palavra amor. Pouco banal. O meu sentido. O que tu não conheces. Tudo isto. Vais ver. Já passa. Em breve. Sossegarás. E serás o que antes eras. Não sei o quê. Sei lá o quê. O que eras. Antes. Deste caos. Para onde nos atirei. Estou cansada. Também. De que o amor se esgote. Assim. De que o amor acabe. Assim. De que as pessoas procurem. Apenas. Sossegar. Se. Desculpa. Me. Se fui única. E sou já tão vulgar.

* Wayne Shorter (6:54) in 'The All Seeing Eye'

5/03/2006

Blue Bolero*








Salvador Dalí - Melancholy Atomic

Afinal. Nenhuma palavra. Poderá salvar. O mundo. Ou outra coisa qualquer. Afinal essa palavra não me salvou do frio. Afinal eu amo-te. E afinal. A palavra. Essa. Já não tem sentido. Afinal. O deserto é azul. Afinal. Que te pode interessar tudo isto agora?

*Abdullah Ibrahim (o tempo que demorou a tua mão na minha) in 'African Magic'

4/27/2006

Blue Skies*










René Magritte - La Promesse

Não é como se uma única palavra tua me salvasse. Mas dizes-me uma palavra. Essa. E acontece que me salvas. Salvas-me de mim. Do que (não) era capaz. Muitas coisas vão desaparecendo. E no seu lugar. Outras coisas. Nascem. Como eu nasço. Salva. Ou limpa. Quando me dizes a única palavra que me parece possível. Entre nós. Como eu nasço para ti. Nas tuas mãos. Ou no teu peito. E não haverá mais nada. Que não céus azuis. Pássaros azuis. Dias claros. Horas inteiras. Instantes tranquilos nos teus olhos. Olho-me, salva, ao espelho. E penso. Em que céus azuis voavas tu que não vinhas ensinar-me a felicidade? Não é como se uma única palavra tua me salvasse. Mas dizes-me. A única palavra. Que importa. No mundo. E acontece. Que me salvas.

*Dinah Washington (7:52 ) in 'After Hours with Miss D'

4/20/2006

Soul of Things*










René Magritte - The Lovers

Não te vejo. Amor. Eu não te oiço. Estou cega. E quero seguir-te. Sem que as coisas tenham peso. Apenas a substância dos sentidos. Sem tempo. E quero seguir-te. Guiada apenas pelo toque dos teus dedos. Não te vejo. Não te oiço. Às vezes não existo. Outros homens cruzam os seus olhares com o meu. Mas eu estou cega. E não os oiço. E não os sigo. E era fácil. Ser guiada por outros dedos que não os teus. Porque. Às vezes. Quero. Ver. E ouvir. E sentir o que não pode ser visto ou dito. Quero seguir. Te. E não há guias. Às vezes há este deserto. Amor. E não te vejo. E não te ouço. E. Nem sequer. Sinto. Que estás aqui. Às vezes há este deserto. Dissolvente.

* Tomasz Stanko Quartet (5:41) in 'Soul of Things'

4/18/2006

Il N'Y A Pas D'Amour Heureux*













Il est déjà trop tard. Pour moi. Trop tard pour t'aimer comme t'as besoin d'être aimé. Je suis désolée. Je ne sais pas quoi faire. On dit que l'amour suffit pour faire tourner le monde. L'amour ou... disons... un tournesol. Mais l'amour il ne suffit pas. Et tu le sais. Le monde est grand et moi... moi je suis trop petite. Pour toi. Pour tout ce qui tu veux de moi. Du monde. De l'amour. De la vie. Moi... j'ai rêvé qui je voudrait exactement la même chose. Mais il était un mensonge. Je suis pas capable de t’aimer comme tu mérites. Je suis pas capable de faire partie de la religion du tournesol. Je parts. Et, en partant, je sais qui je t’aime. Et qui tu… toi aussi… tu m’aimes. Mais. Il y est trop tard pour moi. Pour t’aimer. Pour avoir un amour heureux. Je n’ai pas du temps. Et surtout je n’ai pas du talent.

*Nina Simone (6:25) in 'A Single Woman'

4/06/2006

Someone To Watch Over Me*









Anselm Kiefer - girassois

Olha. Vem ouvir(me). Estava perdida num campo de girassois. Para sempre. Ouve(me). Não sei como me encontraste. Mas vieste. A realidade. Deixou de ser importante. E tu vieste. Num campo de girassois. Quem anda perdido. Raramente se encontra. Demasiadas distracções. Ou assim. Quem anda perdido. Raramente encontra. Quer dizer. Precisa que o encontrem. De tanto (não) andar à procura. Ou assim. E tu chegaste. Não sei de onde vieste. Deixou de ser importante. Tudo. Qualquer coisa. Desapareceu. Porque quando vieste. Para me encontrar. Devolveste-me o que eu desconhecia. De mim. Esta vontade irracional. De me fechar numa caixa. Ou assim. Só. Para que tomes. Conta. De mim.

* Chet Baker (3:03) in 'My Funny Valentine'

3/30/2006

Blue Sands*












Descubro dentro de um caderno de apontamentos (e que apontava eu, nessa época, de tão diferente, do que hoje aponto?) o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, foram importantes. Reconheço-o como quem recupera a evidência do amor que teve. Dentro do caderno a carta. Sob o último malmequer amarelo de todos os malmequeres que, alguma vez, me deste. Dentro da carta o desenho. Dentro da carta o silêncio que as palavras pesadas encerram. Dentro da carta e do desenho e do silêncio das palavras. Eu. O asteroide. A estrela cadente. O castanheiro. A raposinha. Eu. E a voz com que me lias, para eu adormecer, a passagem em que a raposa explica ao pequeno princípe o que é cativar. Dentro da carta e do desenho e das palavras agora abandonadas. Um pouco tristes. Agora. A tua voz quando me interrompias a vida, para me anunciar, digamos, coisas tão subitamente urgentes como: já reparaste que os castanheiros estão em flor, meu amor? E eu não. Claro. Eu não tinha reparado na urgência com que florescem os castanheiros. Porque ninguém me havia feito notar que todos os castanheiros ao florescer era por mim que o faziam. Dentro da carta a tua voz. Raposinha. E as areias do deserto. O deserto para onde lançaste um frágil barco. E o profundo azul do mar para onde lançaste as dúvidas de me teres e não me teres. E de onde tiraste todos os malmequeres amarelos, incluindo este, que acompanharam todos os momentos em que as nossas mãos, cheias um do outro, se encheram mais. Todos os instantes em que o universo descansou nos nossos corpos. Todos os momentos em que a perfeição nos visitou. Depois de eu ter atirado o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, me importaram, para dentro do caderno onde apontava a respiração. Assombraste-me outra vez com a vastidão do teu amor. Apesar do malmequer seco. Dentro dos apontamentos. Acho que nunca te disse obrigada. Nunca fechei o caderno. Nunca rasguei a carta. Nem o desenho. Nunca acabei de te esquecer. E hoje. Faço-o. Hoje regresso ao deserto. De outras areias. Regresso ao profundo azul. De um outro mar.

* Chico Hamilton Quintet (6:30) in 'The West Coast Jazz Box, an Anthology of California Jazz'

3/29/2006

Things Behind The Sun*













Anselm Kiefer - Sol invictus

Não me digam que a beleza não magoa. Sobretudo. Não me digam que a beleza não mata. Não me digam que as palavras ao construirem as pontes. Os nós. As cadeias. As teias. Não desconstroem. Também. Tudo. Não me digam que tudo pode ser dito. Sobretudo. Não me digam que a beleza pode ser dita. Sempre. Não me digam que há coisas para além do sol. Quando as que se encontram aquém dele. Até onde o olhar e os demais sentidos podem alcançar. São. Insuportávelmente. Belas. Mesmo depois de queimadas. Não me digam que o amor não magoa. Que o amor não mata. Que a construção do próprio amor. Não destrói. Sempre. Qualquer coisa. Mesmo que o amor seja absoluto. Absolutamente verdadeiro. Não me digam que as pétalas dos girassóis sempre estarão vivas. E que a beleza é isso. Porque. Há demasiada e demasiadamente violenta beleza num girassol desfeito. Para cá. Do sol. Ou das restantes. Estrelas. Há demasiada beleza. Uma insuportável beleza. Neste amor. Que me destrói.

* Brad Mehldau (4:37) in 'Live in Tokyo'

3/26/2006

Fascinating Rhythm*



Imaginem que me encontrei completamente perdida exactamente no meio das cores demasiado vibrantes de um musical dos anos cinquenta. O cabelo, demasiado louro para ser sério, cai-me em cachos demasiado perfeitos. O technicolor acentua-me a cor vermelha, demasiado vermelha para que seja de verdade, da boca. Imaginem que me encontro. Imaginem que há este rapaz, cujo ritmo fascinante me diz que as cores estão todas certas. Que os cachos são mesmos louros. Que a boca é mesmo vermelha. Que se pode dançar para sempre dentro de uma película. Imaginem que me encontro. Completamente. Dentro. De um musical. De onde. Não quero. Sair.

*Ella Fitzgerald (3:21) in 'Ella Fitzgerald Sings The Gershwin Songbook'

3/24/2006

In a Sentimental Mood*













Aqui tens uma das minhas orelhas. Uma orelha perfeita. Para a tua voz. Ou até para o que, sem ela, escuto de ti. Aqui tens a minha pequeníssima orelha para tudo o que quiseres que eu ouça. E para tudo o que nunca me deixarás ouvir. Aqui tens a minha orelha pequenina para todas as tuas constelações de sons. Coisa mais improvável esta. Estar sentimental. Estar disponível para, com os sentidos todos, ficar quieta enquanto a tempestade se anuncia. Para permanecer. Assim. Urgentemente.

*John Coltrane (4:17) in 'Coltrane For Lovers'

Também acho que se impõe a versão da Sarah Vaughan (4:03) in 'After Hours'

3/22/2006

If You Could See Me Now*











Joan Miró - Blue

Acendo um cigarro. Estou disponível para o amor. O fumo espalha-se como fino nevoeiro após um dia muito quente. Nas terras que ficam perto da água. Estou disponível para qualquer coisa. Agora que já não estás. Que já não acendes no meu o teu cigarro. Encontro-me disponível para tudo. Disponível para a tristeza. Talvez. De ainda estar disponível para (te) amar. Não estando tu já aqui. Disponível para qualquer coisa que substitua. O cigarro. A tristeza. Tu. Disponível para a impossibilidade de te reencontrar na esquina do costume, afastando o cabelo com a ponta dos dedos. Segurando o cigarro na outra mão. Semicerrando os olhos para me veres melhor. Disponível para a improbabilidade de um encontro com alguém com quem, mesmo se vagamente, te pareças.

* Sheila Jordan (4:30) in 'Portrait of Sheila Jordan'

3/20/2006

Body and Soul*



Passou o inverno. Os dias em que caminhámos pela cidade, afagando docemente as bátegas de chuva que caíam nas nossas mãos. Ao sairmos do cinema, os nossos olhos mergulhavam na bruma das luzes caleidoscópicas da cidade, ainda cheios de imagens vívidas e quentes dos cenários e dos diálogos e irónicos que, inevitavelmente, acabavamos sempre por transportar para os temas das nossas longas e profundas conversas. E, ainda assim, sempre disseste que a esperança não habitava o fundo do teu olhar, apenas por ser inverno. E agora, ele partiu. Despontam as primeiras flores, girassóis, tulipas e as árvores renascem insufladas de um novo sopro de vida. São os primeiros dias de primavera. E o teu olhar é um nítido fresco de cores que não sei designar porque me escapa a intensidade do teu sentimento. Vou aprendendo a compreendê-lo intimamente. Ah, e não me esquecerei de te oferecer um girassol para que possas colocar entre as flores mais sagradas do teu jardim, sem dúvida para te dizer: não olhes para trás.

Texto de Bruno

*Freddie Hubbard (4:36) in'The Body and The Soul of Freddie Hubbard'

3/14/2006

She's Leaving Home*



Ela saiu-me! [finalmente!] Saiu-me de cá dentro, da minha vida, da vida que não tinha, que era nossa. Saiu-me e levou-me em parte com ela [não sei quanto de mim partiu]. Bem, mas ela saiu e isso é que me interessa. Estou só. Ela saiu. Fiquei só como pretendia, como sempre lhe disse que queria, sem mim [disparate! Sem ela!] Não importa sei que fiquei, ainda me conseguirei restar alguma coisa. Não precisarei de buscar muito para me voltar a rever, para me reencontrar, para encontrar quem fui em tempos [já sabes lá tu quem serias em tempos!]. Eu bem sei quem era! Ela saiu-me e eu estou a morrer! Com a minha falta, estou a morrer. Com a falta de mim, da parte que ela me levou.

Fazes-me falta! … Volta! Volta por favor e dá-me, ainda me tens!?

Texto de JOS

*Brad Mehldau Trio (9:07) in 'Day is Done'