9/21/2006

Once I Loved*




















Georgio De Chirico - La nostalgia dell'infinito


A única evidência, além da música, é que o amor é a coisa mais triste, quando se desfaz**. Sei quase nada. Mas sei. Dessa infinita tristeza. Dessa nostalgia infinita. Sermos pequenos como as nossas sombras. E desejarmos abismos. Sei dos abismos e das alturas. E das vertigens e das quedas. Sei até das mentiras. E das verdades mais duras. Sei quase nada. Apenas sei (porque me ensinaram) que pensar é estar doente. Dos sentidos. Mas pior. A única evidência, além da música, são as palavras apagadas uma a uma. Sei da nostalgia. E da inquietude. E da esperança. Sei do infinito das paixões violentas. E do instante do amor em paz.

* Shirley Horn (6:50) in 'Close Enough For Love'

** Tom Jobim e Vínicius de Moraes O Amor em Paz, de que a música que toca é uma versão.

9/18/2006

The Wind*








Jackson Pollock - Autumn Rhythm


Só isto. Por uma vez. Só isto. Ouvir o vento. E estar certa. Não sei que coisas transporta o vento. Mas penso que música. Definitivamente música. Mas parece que também um coração partido. Daquele exacto modo em que as flores se partem, depois de quebradas por um excesso de água. Ou uma extrema ausência. Não sei que coisas traz o vento. Definitivamente a música. Incertamente uma flor partida. Um coração quebrado por uma extrema ausência. De si mesmo. O vento traz. Talvez. A inconstância dos dias em que temos que ser. Mais. Para além do vento. Em que temos que ser. A flor partida. O coração quebrado. A música que estranhamente se vai esvaindo. Só isto. Por uma vez. Só isto. Ouvir o vento. E estar certa. Que as flores se partem. E. As folhas dançam no Outono exactamente ao mesmo ritmo que os corações quebrados batem. Ouvir o vento e estar certa. De que sou daqui. E as pessoas daqui... sabem? As pessoas daqui não são iguais às outras. São estranhas pessoas. As que ouvem o vento. E únicas. De certo modo únicas. Como é único cada movimento. Do vento.

* Quoyle (4:03 ) Round About Midnight

9/14/2006

Inquietude*











Anselm Kiefer - Cette obscure clarté qui tombe des étoiles

Sabemos dos truques das estrelas. Carregamo-los dentro. Como intermitentes brilhos. De mágoa. E felicidade. Intermitentes. Sabemos que a luz das estrelas pode ser obscura. E que é por baixo da luz que, tantas vezes, encontramos os lugares da mais profunda escuridão. Esses lugares de tão intensa claridade. Que nos fazem fechar os olhos e querer. Desaparecer. Deixar de ser. Deixar de sentir. Ficar como antes. Com uma claridade vulgar. Uma vulgar escuridão. Não ter. Não ver. Não perceber. Sabemos. Dos truques das estrelas. Dos seus intermitentes brilhos. Da sua instável condição. Morrer primeiro para que tudo possa ser claro. Dessa inquietude profunda. De haver. Para além de um escuro céu sereno. O brilho.

* Bernardo Sassetti (3:54) in 'Indigo' - Disco 1

9/11/2006

Over the Rainbow*












Jackson Pollock - Greyed Rainbow

O mundo nunca foi um lugar seguro. Mas, apesar das suas mais feias faces, o mundo é ainda um belo lugar. Há e houve sempre notas de esperança. Na música. E. Estou segura. Na humanidade.

* Keith Jarrett (6:02) in 'La Scala'

9/06/2006

Solitude*













Anselm Kiefer - Innenraum (Interior)


Um quarto. Vazio. Eu. Encontrei a minha casa. Longe demais. Longe. Haverá sempre música bastante. Não sei que histórias conte. A solidão levar-nos-á para sempre. Aos lugares que conhecemos. Já. Um quarto. Vazio. Na minha longínqua casa. Agora encontrada. Sobre o vazio. Dentro. Haverá sempre música. E uma voz. Longe. A minha casa.

*Abdullah Ibrahim (0:16) in 'African Magic'

9/01/2006

Misty*














Gustav Klimt - The Kiss

O desejo de uma boca não é grave. Mas é aguda esta pontada de espanto com que te vejo advinhar-me os passos. Os passos interiores. À tua volta. Vou fumar. Vou fumar, para que me passe esta grave vontade de que continues advinhando os meus lábios. Imaginando com os dedos a forma como te respondem quando perguntas se acredito que sentes exactamente o que eu penso. O desejo de uma boca não é. Grave. Mas eu sinto uma dor. Aguda. Pelas tuas mãos. Ausentes.

*Sarah Vaughan and Quincy Jones (2:59) in 'Misty'

8/10/2006

Eu sei que vou te amar*













Juan Miró - Cifras y constelaciones en amor con una mujer

Ho incontrato un pianista che suona molto bene ed a cui piacciono le stelle...

..por isso roubei-lhe esta música. Que ele parece tocar apenas com o céu cheio de estrelas por companhia.

Grazie per tutta la tua musica, F.

*Quoyle (6:06) Round About Midnight

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida
Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

(Vinicius de Moraes/Tom Jobim)

8/07/2006

Saudades*








Jackson Pollock - The Key



Saudades. Muitas. E só de ti. Mas quem és tu? Serás aquele que primeiro amei. Ou o outro, que primeiro me amou? Ou aquele com quem vivi. Ou aquele que viveu comigo? Serás quem amo ainda. Ou quem já abandonei há muitas horas? Serás quem me ateia os incêndios nocturnos. Ou aquele que os apaga em gestos suaves? Serás aquele que expulsei da minha casa. Ou quem a mim me expulsou? Serás quem me ensinou a ler um corpo. Ou aquele que aprendeu comigo o alfabeto da lingua vagarosa sobre a pele? Serás o que matou ou quem matei? Quem és tu, de quem sinto estas saudades muitas? Tantas como quem deixou um mundo de coisas abertas na vida e perdeu as chaves no caminho.

*Trio Beyond: Jack DeJonhette, Larry Goldings; John Scofield (10:46) in 'Saudades'

7/31/2006

Light in the Morning (Many Thousand Gone)*










Salvador Dalí - Face of the War


Posso chamar-me, hoje, Hassan, ter oito anos e estar morto. Amanhã. Ou mesmo agora. Não ver já a luz da manhã. Amanhã. Ouvir, hoje, apenas os gemidos dos que morrem ao meu lado, debaixo das pedras. Posso hoje chamar-me Hassan e ser apenas uma criança. Estar morto. Agora mesmo. Ou amanhã. Quem se importa que eu tenha oito anos, me chame Hassan e amanhã já não tenha olhos para ver a luz da manhã?

* Marty Ehrlich Sextet (9:56) in 'News on the Rail '

7/20/2006

Strange Fruit*














Maya Kulenovic - Great War**

«Esvaziámos os lugares da matança, retirando-lhes o peso dos nossos mortos»
E os nossos mortos serão sempre mais pesados que os mortos dos outros. Por isso esvaziamos os lugares da guerra do seu peso. Em troca deixamos frutos estranhos, carne queimada e uma colheita de horrores. E não temos vergonha. Continuamos a não ter vergonha. O vento varre-a juntamente com os corpos de centenas de homens, mulheres e crianças que tiveram a pouca sorte de não serem 'nossos'.

* Billie Holiday (3:05) in 'Lady Sings the Blues: The Billie Holiday Story, Vol. 4'

«Southern trees bear a strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black body swinging in the Southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolia sweet and fresh,
And the sudden smell of burning flesh!

Here is a fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for a tree to drop,

Here is a strange and bitter crop» **

**Outros contextos mas, no essencial, pouco diversos.

7/16/2006

Mediolistic*














Henri Matisse - Icarus - quadro VIII da série Jazz

Afinal. O que importa é a música. O jazz. O azul. Noite. As estrelas. Dançar, mesmo que se não saiba. E o coração no lugar certo. Não desfeito. Não nas mãos. Mas dentro do peito. O coração que é apenas o coração. Não uma qualquer metáfora para devaneios da cabeça. O coração que faz a sua parte. Bombear o sangue. Bater para viver o que importa. A música. O jazz. A noite. O azul. As estrelas. E as palavras.

*Al Cohn & Zoot Sims (3:29) in 'From A to Z'

7/11/2006

Feeling Good*















René Magritte - L'Art de Vivre

O sol na cabeça. Ter o sol. Na cabeça. Ou a cabeça no sol. De qualquer modo, viajar muito alto. Muito longe. Na cabeça. Com o sol. Sinto-me tão bem. Tão viva. Tão despojada das minhas costumeiras angústias que me apetece gostar do sol. Ter a cabeça no sol. Ou o sol na cabeça. Até queimar o passado todo. O passado que está morto. Que já passou. Que já não interessa. Só o sol. E a viagem. O momento da viagem. Ou cada momento da viagem. Muito alto. Muito longe. Interessa. Não o passado. Ou o futuro. Talvez nem o presente interesse. Apenas a sensação de estar viva. De escrever ao sol. Na cabeça.

* Nina Simone (2:54) in 'Feeling Good'

7/07/2006

Alegria Callada*














Sebastião Salgado - San Juan, 1979


Hoje tenho sete anos. Ainda sinto as mãos da minha mãe a entrançar os meus cabelos. Hoje tenho sete anos e borboletas na barriga. Borboletas iguais, nas cores, aos laços que a minha mãe me põe na ponta das tranças. Hoje tenho sete anos e tenho pressa. As mãos da minha mãe nos cabelos e pressa. De te encontrar sentado contra o tempo. No jardim em frente aos prédios. Na praceta da minha infância. Tenho sete anos e saio de casa a correr. Tenho sete anos e posso brincar na rua. Tenho sete anos e uma cara perfeita. Como os anjos. Tenho sete anos e a minha cara ainda não partiu numa direcção indistinta. Saio de casa a correr. Para o jardim em frente aos prédios. Páro. Com um pé atrás do outro. A sentir as asas das borboletas às voltas na barriga. Páro. Porque te vejo sentado no balouço, com o saco dos berlindes a cair-te da mão direita. Avanço um bocadinho. Avanço tudo, com a minha cara perfeita como a dos anjos. Tenho sete anos e tenho pressa. Pergunto-te - e as asas já não voam, golpeiam - queres brincar comigo? #

* Chano Domínguez (6:59) in 'Iman'

# texto publicado antes, sem banda sonora e com o título Asas e Golpes, no blog entretanto extinto - Pilar da Ponte de Tédio

6/29/2006

Anything Goes*










Juan Miró -Mujer soñando la evásion


Hoje este blog faz um ano. Este blog é sobretudo o jazz. É azul. Mas nem sempre é triste. Às vezes é. Como a vida e tudo mais. Está tudo azul. Ouve-se jazz. Um deus passeia-se comigo pela brisa das tardes**. E aqui dentro há uma espécie de calma reconciliação com tudo o que fui, sou, serei.

* Brad Mehldau Trio (7:07) in 'Anything Goes'

** Descaradamente baseada no título do livro de Mário de Carvalho - Um Deus Passeando na Brisa da Tarde

6/20/2006

Laughing At Life*










Salvador Dalí - Paysage aux Papillons

«Bad, mad and dangerous to know».
Gostei tanto desta definição, Carlos, que te dedico este sorriso da Billie. Enquanto eu mesma sorrio. As borboletas estão só na paisagem. Que é seguramente um local adequado às borboletas, quando se anuncia o verão.

* Billie Holiday (2:54) in 'The Lady Sings'

6/19/2006

Parallels*

















Jackson Pollock - Male and Female


Viveremos. É verdade. Que viveremos. Tu contra o que te dei. Eu a favor de quanto me ofereceste. Paralelos. Viveremos. Como duas linhas que jamais se encontrarão. Tendo-se já encontrado. Como duas margens de um rio. Juntas na nascente. Mas depois. Transportando a água. Para outra água. Viveremos. Certamente. Viveremos. Afastados da nascente. Velozmente. Procurando. Outra água.
Não sei onde te perdeste dos meus olhos, se ainda os tenho. Não sei onde te desencontraste das minhas mãos, se ainda são minhas. Não sei onde te esqueceste do meu corpo, se ainda o sinto. Não sei onde deixaste a minha boca. Se ainda a tenho aberta à espera dos teus dedos. Um por um. Não sei para onde foste, se ainda aqui te encontro. Mas creio saber que te vestiste. E mesmo assim. Entraste. Nessa outra água que não transporto. Enquanto eu continuo nua. Nua como quando foste tu que me vestiste. Mas de gestos. Nua como quando também estavas nu. Como quando nascíamos da mesma água e nos fazíamos dançar. Uma e outra vez. Como quando corríamos no mesmo rio. E não tínhamos margens a limitar a nossa dança. Nua à espera que regresses. Sabendo já que. Viveremos. Seguramente. Viveremos. Paralelos. Os meus olhos já esquecidos. As minhas mãos já sem magia. O meu corpo sendo apenas o meu corpo. A minha boca à procura da tua, na expectativa da água onde (nos) dançaríamos. Outra vez.

*Keith Jarret (4:58) 'Dark Intervals'

6/14/2006

Just Say I Love Him*















Paul Klee - Remembrance of a Garden

Quero dizer que o amo. Ainda. Não me custa amá-lo. Ainda. Nem não o ter. Como o tive. Completamente nu. Evidente. Não dele. Mas meu. Quero dizer que o amo. Ainda. A sua nudez. A sua evidência. Não me custa amá-lo. Apesar de não ser já meu. Não me custa amá-lo. Apesar de o ter deixado ir embora. Já tão vestido. Amo-o. Chove. E eu preciso dele. Apesar de já não o ter. Não me custa precisar dele. Chove. E eu preciso dele. Como as flores precisam da água que não nasce da terra, mas do céu. Quero dizer que o amo. Agora. Que ele caminha por outra cidade. Outra estrada. E já não é meu. Alguém o há-de ter. Como eu o tive. Alguém o verá dormir. Como um menino. Respirar. Como qualquer pessoa. Alguém o terá. Evidente. Nu. Sem ser dele. Mas quero dizer. Assim mesmo. Que o amo. Que preciso dele. Como as flores precisam da chuva. Quero dizer que me lembro. Do jardim que nascia nos seus olhos. Chove. Ninguém lhe dirá. Nem eu. Que ainda o amo. Porque não importa.

* Nina Simone (6:35) in 'Forbidden Fruit'

6/09/2006

Chair in the Sky*
















Pablo Picasso - Woman in an Armchair


Uma cadeira de braços. No céu. Ou a partir de onde eu imagine o céu. Com estrelas. Demasiadas. Um céu de inverno. Com improváveis estrelas. Frio. Uma cadeira de braços. E eu sentada nela. Tão intactos quanto possível. A cadeira. O céu. Uma intacta cadeira num intacto céu de inverno com estrelas de intacto brilho. Improváveis. E eu. Provavelmente desfragmentada. A esquizofrenia de que (ainda) não padeço porque a reconheço quando chega. Talvez já esteja nos braços da cadeira. À espera que eu me sente e tente. Reunir fragmentos do que sou e serei. E do que fui. Se. Um dia tiver uma cadeira de braços. Intacta num intacto céu de improváveis estrelas de brilho intacto. Acho que serei. Uma velha mulher. Apenas sentada numa cadeira. De braços. No céu.

* Mingus Big Band (9:05) in 'Live in Time' - Disco 2

6/05/2006

Que Pasa?*















Anselm Kiefer - Falling Stars


Nada. Não se passa nada. Absolutamente nada. Excepto só me apetecer estar dentro deste quadro de Kiefer. Deitada na erva. A olhar para o brilho das estrelas (o que me falta a mim) e não fazer nada. Absolutamente nada. Talvez pensar em ti. Perguntar às estrelas: Que pasa? E elas vão responder-me que te sentes assim feliz como eu. Por nada se passar. Por estar tudo bem. Por estares noutro sítio qualquer. Deitado noutra erva. A contemplar o brilho das estrelas. Não outras. Mas exactamente. Absolutamente as mesmas. Não se passa rigorosamente nada. E no entanto. É como se vivessemos a absoluta comunhão de tudo. Ainda. Na contemplação das estrelas. Na felicidade sossegada que é nada se passar. De podermos. Ainda. Embora cada um por seus caminhos. Deitarmo-nos na erva. E olhar para o brilho das estrelas. Com a cara toda.

* Horace Silver (7:47) in 'Song For My Father'

6/02/2006

All Right, Okay, You Win*

















Jackson Pollock - The Moon-Woman


Agora. A lua está tão crescente. E eu estou assim. A ver se não mirro. Agora. Vamos dar ritmo às estrelas. Esquecer que estão mortas. Agora. Só me apetece ser feliz. Deve ser destas noites carregadas de flor. Cobertas de cheiros. Agora. A mim também. Só me apetece estar em flor. Crescente de de dias claros. Grávida como as árvores de fruto. Coberta do cheiro das giestas e do jasmim. Deitar-me nua contigo nas ervas quentes. E fingir. Que estou na lua.

* Peggy Lee (2:53) in 'The Best of Miss Peggy Lee'