4/06/2006

Someone To Watch Over Me*









Anselm Kiefer - girassois

Olha. Vem ouvir(me). Estava perdida num campo de girassois. Para sempre. Ouve(me). Não sei como me encontraste. Mas vieste. A realidade. Deixou de ser importante. E tu vieste. Num campo de girassois. Quem anda perdido. Raramente se encontra. Demasiadas distracções. Ou assim. Quem anda perdido. Raramente encontra. Quer dizer. Precisa que o encontrem. De tanto (não) andar à procura. Ou assim. E tu chegaste. Não sei de onde vieste. Deixou de ser importante. Tudo. Qualquer coisa. Desapareceu. Porque quando vieste. Para me encontrar. Devolveste-me o que eu desconhecia. De mim. Esta vontade irracional. De me fechar numa caixa. Ou assim. Só. Para que tomes. Conta. De mim.

* Chet Baker (3:03) in 'My Funny Valentine'

3/30/2006

Blue Sands*












Descubro dentro de um caderno de apontamentos (e que apontava eu, nessa época, de tão diferente, do que hoje aponto?) o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, foram importantes. Reconheço-o como quem recupera a evidência do amor que teve. Dentro do caderno a carta. Sob o último malmequer amarelo de todos os malmequeres que, alguma vez, me deste. Dentro da carta o desenho. Dentro da carta o silêncio que as palavras pesadas encerram. Dentro da carta e do desenho e do silêncio das palavras. Eu. O asteroide. A estrela cadente. O castanheiro. A raposinha. Eu. E a voz com que me lias, para eu adormecer, a passagem em que a raposa explica ao pequeno princípe o que é cativar. Dentro da carta e do desenho e das palavras agora abandonadas. Um pouco tristes. Agora. A tua voz quando me interrompias a vida, para me anunciar, digamos, coisas tão subitamente urgentes como: já reparaste que os castanheiros estão em flor, meu amor? E eu não. Claro. Eu não tinha reparado na urgência com que florescem os castanheiros. Porque ninguém me havia feito notar que todos os castanheiros ao florescer era por mim que o faziam. Dentro da carta a tua voz. Raposinha. E as areias do deserto. O deserto para onde lançaste um frágil barco. E o profundo azul do mar para onde lançaste as dúvidas de me teres e não me teres. E de onde tiraste todos os malmequeres amarelos, incluindo este, que acompanharam todos os momentos em que as nossas mãos, cheias um do outro, se encheram mais. Todos os instantes em que o universo descansou nos nossos corpos. Todos os momentos em que a perfeição nos visitou. Depois de eu ter atirado o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, me importaram, para dentro do caderno onde apontava a respiração. Assombraste-me outra vez com a vastidão do teu amor. Apesar do malmequer seco. Dentro dos apontamentos. Acho que nunca te disse obrigada. Nunca fechei o caderno. Nunca rasguei a carta. Nem o desenho. Nunca acabei de te esquecer. E hoje. Faço-o. Hoje regresso ao deserto. De outras areias. Regresso ao profundo azul. De um outro mar.

* Chico Hamilton Quintet (6:30) in 'The West Coast Jazz Box, an Anthology of California Jazz'

3/29/2006

Things Behind The Sun*













Anselm Kiefer - Sol invictus

Não me digam que a beleza não magoa. Sobretudo. Não me digam que a beleza não mata. Não me digam que as palavras ao construirem as pontes. Os nós. As cadeias. As teias. Não desconstroem. Também. Tudo. Não me digam que tudo pode ser dito. Sobretudo. Não me digam que a beleza pode ser dita. Sempre. Não me digam que há coisas para além do sol. Quando as que se encontram aquém dele. Até onde o olhar e os demais sentidos podem alcançar. São. Insuportávelmente. Belas. Mesmo depois de queimadas. Não me digam que o amor não magoa. Que o amor não mata. Que a construção do próprio amor. Não destrói. Sempre. Qualquer coisa. Mesmo que o amor seja absoluto. Absolutamente verdadeiro. Não me digam que as pétalas dos girassóis sempre estarão vivas. E que a beleza é isso. Porque. Há demasiada e demasiadamente violenta beleza num girassol desfeito. Para cá. Do sol. Ou das restantes. Estrelas. Há demasiada beleza. Uma insuportável beleza. Neste amor. Que me destrói.

* Brad Mehldau (4:37) in 'Live in Tokyo'

3/26/2006

Fascinating Rhythm*



Imaginem que me encontrei completamente perdida exactamente no meio das cores demasiado vibrantes de um musical dos anos cinquenta. O cabelo, demasiado louro para ser sério, cai-me em cachos demasiado perfeitos. O technicolor acentua-me a cor vermelha, demasiado vermelha para que seja de verdade, da boca. Imaginem que me encontro. Imaginem que há este rapaz, cujo ritmo fascinante me diz que as cores estão todas certas. Que os cachos são mesmos louros. Que a boca é mesmo vermelha. Que se pode dançar para sempre dentro de uma película. Imaginem que me encontro. Completamente. Dentro. De um musical. De onde. Não quero. Sair.

*Ella Fitzgerald (3:21) in 'Ella Fitzgerald Sings The Gershwin Songbook'

3/24/2006

In a Sentimental Mood*













Aqui tens uma das minhas orelhas. Uma orelha perfeita. Para a tua voz. Ou até para o que, sem ela, escuto de ti. Aqui tens a minha pequeníssima orelha para tudo o que quiseres que eu ouça. E para tudo o que nunca me deixarás ouvir. Aqui tens a minha orelha pequenina para todas as tuas constelações de sons. Coisa mais improvável esta. Estar sentimental. Estar disponível para, com os sentidos todos, ficar quieta enquanto a tempestade se anuncia. Para permanecer. Assim. Urgentemente.

*John Coltrane (4:17) in 'Coltrane For Lovers'

Também acho que se impõe a versão da Sarah Vaughan (4:03) in 'After Hours'

3/22/2006

If You Could See Me Now*











Joan Miró - Blue

Acendo um cigarro. Estou disponível para o amor. O fumo espalha-se como fino nevoeiro após um dia muito quente. Nas terras que ficam perto da água. Estou disponível para qualquer coisa. Agora que já não estás. Que já não acendes no meu o teu cigarro. Encontro-me disponível para tudo. Disponível para a tristeza. Talvez. De ainda estar disponível para (te) amar. Não estando tu já aqui. Disponível para qualquer coisa que substitua. O cigarro. A tristeza. Tu. Disponível para a impossibilidade de te reencontrar na esquina do costume, afastando o cabelo com a ponta dos dedos. Segurando o cigarro na outra mão. Semicerrando os olhos para me veres melhor. Disponível para a improbabilidade de um encontro com alguém com quem, mesmo se vagamente, te pareças.

* Sheila Jordan (4:30) in 'Portrait of Sheila Jordan'

3/20/2006

Body and Soul*



Passou o inverno. Os dias em que caminhámos pela cidade, afagando docemente as bátegas de chuva que caíam nas nossas mãos. Ao sairmos do cinema, os nossos olhos mergulhavam na bruma das luzes caleidoscópicas da cidade, ainda cheios de imagens vívidas e quentes dos cenários e dos diálogos e irónicos que, inevitavelmente, acabavamos sempre por transportar para os temas das nossas longas e profundas conversas. E, ainda assim, sempre disseste que a esperança não habitava o fundo do teu olhar, apenas por ser inverno. E agora, ele partiu. Despontam as primeiras flores, girassóis, tulipas e as árvores renascem insufladas de um novo sopro de vida. São os primeiros dias de primavera. E o teu olhar é um nítido fresco de cores que não sei designar porque me escapa a intensidade do teu sentimento. Vou aprendendo a compreendê-lo intimamente. Ah, e não me esquecerei de te oferecer um girassol para que possas colocar entre as flores mais sagradas do teu jardim, sem dúvida para te dizer: não olhes para trás.

Texto de Bruno

*Freddie Hubbard (4:36) in'The Body and The Soul of Freddie Hubbard'

3/14/2006

She's Leaving Home*



Ela saiu-me! [finalmente!] Saiu-me de cá dentro, da minha vida, da vida que não tinha, que era nossa. Saiu-me e levou-me em parte com ela [não sei quanto de mim partiu]. Bem, mas ela saiu e isso é que me interessa. Estou só. Ela saiu. Fiquei só como pretendia, como sempre lhe disse que queria, sem mim [disparate! Sem ela!] Não importa sei que fiquei, ainda me conseguirei restar alguma coisa. Não precisarei de buscar muito para me voltar a rever, para me reencontrar, para encontrar quem fui em tempos [já sabes lá tu quem serias em tempos!]. Eu bem sei quem era! Ela saiu-me e eu estou a morrer! Com a minha falta, estou a morrer. Com a falta de mim, da parte que ela me levou.

Fazes-me falta! … Volta! Volta por favor e dá-me, ainda me tens!?

Texto de JOS

*Brad Mehldau Trio (9:07) in 'Day is Done'

3/09/2006

The Well-Wisher*












Pablo Picasso - Petites Fleurs

Em mim sobrevivem ainda pequenos grãos de optimismo. Uso-os agora. Para desejar o melhor. A todos nós. Para desejar que o Portugal futuro seja um país em que, como dizia Ruy Belo, o puro pássaro é possível.

* Esbjörn Svensson Trio (3:47) in 'Viaticum'

2/24/2006

Speak No Evil*













Paula Rego - No Deserto

Passar pelas pessoas sem lhes causar dano. Não usar as palavras erradas. Nunca. Não causar dano. Não dizer nada que magoe. Ofenda. Doa. Ou mesmo. Toque. Ser invisível. Estar no meio de coisa nenhuma e ser invisível. Não existir. Não desejar mal. Ou bem. Não desejar. Não fazer mal. Não fazer bem. Não fazer nada. Estar sem ser vista. Sentir sem ser sentida. Não pressentir. Não anunciar. Não usar palavras. Calar-me. Estar no deserto. Só. Ajoelhar-me. Pedir que não me façam mal. Ou bem. Ou nada. Não querer que queiram nada de mim. Não querer nada. De ninguém. Nunca.

* Wayne Shorter (8:21) in 'Footprints: The Life and Music of Wayne Shorter' ou in 'Speak No Evil'

2/10/2006

Let's Face The Music And Dance*











Picasso - Mulheres correndo na praia

Tempos difíceis. Já sabemos. Antes que nos peçam para pagar uma qualquer conta que o carteiro não nos trouxe (mesmo se as contas. Sejam já a única coisa. Que o carteiro nos traz)... será bom lembrarmo-nos que haverá sempre qualquer coisa que nos é oferecida. Luar. Música. Amor. Romance. Mesmo que a conta a pagar seja alta. Por nos termos esquecido de qualquer coisa. Lá atrás. Ou por termos dado tudo. Mais adiante. Lembremo-nos que por enquanto ainda há. Luar. Música. Amor. Romance. E palavras para ler e para dizer. Palavras diferentes. De Problemas. De contas. De deves. E de haveres. E de teres. Palavras que nada custam. Movimentos que não encerram intenções. Por enquanto ainda há. Boas inquietações. E razões. Para enfrentar a música e dançar. Como se não viessem daqui a pouco. As contas. Para pagar.

*Escolhi para o Carlos Azevedo a versão da Anita O'Day (3:16) in 'Pick Yourself Up'
Mas gosto também destas versões:
Ella Fitzgerald (2:56) in 'The Complete Ella Fitzgerald Song Books'


Sheila Jordan (1:15) in 'Portrait of Sheila Jordan'


Diana Krall (5.18 ) in 'When I Look in Your Eyes'

2/03/2006

A Song I Used to Play*












Eu antes sabia cantar. Fiava. Sabia. Cantar. Canções. Nos fios. Que fiava. Sabia. Cantar. Eu antes era. O que sabia. Hoje sou. O que já me esqueci. Tecidos os fios. Que fiei. Cantadas as canções. Que sabia. Eu antes desconhecia. Que há música bastante nos mapas que as rugas traçam. No entrelaçado das fibras. Eu antes sabia. Cantar. E fiar. Hoje sei que a música se calará. Que não se fia a vida. Só se tece. E entrelaça.

* Arild Andersen (2:45) in 'A Molde Concert'

2/01/2006

What Do You Want?*



Maria, que me queres?** A mim, que me esforço por evitar correntes, a não ser as dos afectos e possuo bem mais manias que cinco? Que me queres tu, Maria? Que exponha as minhas pequenas idiossincrasias, já que as grandes, nem às paredes confesso, quanto mais aos telhados de vidro da blogosfera!? Pois, Maria, eu se pudesse resumir-me, dir-te-ia que tenho
- A mania de acreditar. De achar que é sempre tudo novo. Mesmo que nada mude. E que tudo, indefinidamente, se repita.
- A mania de gostar de palavras. Da palavra vento. Da palavra casa. Da palavra pedra. Da palavra inquietude. Da palavra árvore. E de girassois.
- A mania completamente prosaica das limpezas. E da ordem. Mania que me custa muitas tarefas, incluindo as que não pedi. E as que não gosto.
- A mania de cheirar os livros, quando os abro. Os novos e os velhos. De reconhecer neles qualquer coisa que os olhos não detectam. Nem os restantes sentidos.
- A mania de dizer muitas vezes a mesma coisa. Aos outros. E a mim.
Não sei, Maria, se era isto que me querias.
Não sei, Maria, se os meus escolhidos continuarão a corrente.
- improvisos ao sul
- a forma do jazz
- a espuma dos dias
- a natureza do mal
- mentes inquietas

*Pat Metheny (5:24) in ' Trio 99>00'
** Parece que se tratou de um repto lançado por En Defensa de Occidente a um Misantropo Enjaulado (há outra maneira de ser Misantropo?) e que temos que listar cinco manias.

1/30/2006

When You're in My Arms*










Robert Doisneau

Não acontece mais nada. Deixa-te ficar. Não quero que aconteça. Mesmo. Mais. Nada. Só isto. Os teus braços. O universo todo. Aqui. E posso fingir que morri. Ou que continuo viva. Deixa-te ficar. Como se fosse possível não acontecer nunca mais. Nada. Depois.

*John Griffin & Martial Solal (6:42) in 'In and Out'

1/23/2006

Up Against the Wall*











Não. Não. Este não é o presidente que escolhi. Recupero o folêgo. Não lamento as expectativas. Escondo o desalento. Respiro fundo o que posso respirar. Cerro os dentes. Encerro a consciência da dor. Lembro-me como era. Antes. Eu. Recordo. Me. Que a democracia é (também) isto. E escolho ficar de pé. Contra este muro. Afasto o embaraço de ser portuguesa hoje. Ou sempre. Como possível. E escolho. Ficar. De pé. Animadamente. Como a música. De pé. E contra.

* John Coltrane (3:19) in 'Impressions'

1/16/2006

Song For Sarah*












É nas tuas mãos que encontro o que não perdi. E o que não peço. Como se as minhas fossem. Estou suspensa nas tuas mãos. Como nas minhas. Estou suspensa na noite. E grito. Até ficar com os nós dos dedos brancos. Grito na noite. Suspensa nas tuas mãos onde (me) encontro. Sem estar perdida. E, todavia, achada que estou. É das tuas mãos. Que eu preciso. Agora.

* Tomasz Stanko Quartet (5:33) in ‘Suspended Night’

1/11/2006

For All You Are*



Passam diante de mim estas gaivotas. E o que tenho para te dizer... é o absurdo de tudo isto. Absurda a água que vejo da janela. O dia cinzento. Esta água cinzenta que me aproxima do mar. Como a ti te aproximava. Embora eu, sem a bicicleta em que voavas. Com as gaivotas. Nestas tardes assim. Paradas.
Estreito o convívio com as gaivotas, nestes dias. Sem ti. Nestes longuíssimos dias. Em que me entretenho. A enganar a tua morte. Ou a minha vida. O que é o mesmo. O treino diário a que me obriga a evidência da tua morte faz-me tão diferente do que fui quando ainda estavas vivo e agarravas a bicicleta
(era vermelha a tua bicicleta. Dei a tua bicicleta vermelha. E às vezes vejo o teu pai passar montado nela. Agarrado a ela como se agarraria a ti se soubesse que um dia a tua bicicleta vermelha ficaria para trás, na precipitação da tua morte). Absurdo este reparar no movimento das asas das gaivotas sobre as águas cinzentas da ria. Num dia assim. Cinzento e murcho. Como as pétalas das flores que raramente me davas. Morrem depressa as flores. Como tu. Guardaste toda a fragilidade das pétalas para o dia em que, absurdamente, deixaste de agarrar a bicicleta
(era vermelha e ainda é).
Partias com tanto vento que, ao ver-te pedalar, não se via em ti a morte, mas a vida.
E estas gaivotas rasantes a estas janelas tão grandes onde, às vezes, lá em baixo, vinhas chamar-me.
Amor.
E eu escancarava a janela e perguntava-te se querias subir tu ou se descia eu. Escolhe tu. Dizias. E a bicicleta
(vermelha)
agarrada à tua mão. E eu escolhia. E às vezes era eu que descia e outras eras tu que subias. Dessas vezes, deixavas a bicicleta
(que sem ti, era sempre vermelha, mas não tinha asas, parecia uma gaivota murcha) encostada à porta do sítio onde tenho esta janela grande, com a ria ao fundo e as gaivotas rasantes. Deste sítio em que vou perdendo os dias. Todos os dias em que não estive contigo. E não ganhei o teu sorriso. Ou, simplesmente, a tua vida. Deste sítio onde estou agora. Tão diferente. Deste sítio de onde não quero sair porque me parece que hás-de aparecer lá em baixo, com a bicicleta vermelha, que agora roubaste ao teu pai, para me chamar.
Amor.
Não sei o que dizer-te desta diferença que sinto no modo como reparo agora nas coisas todas só para perceber que não existes. Que já não nos sentamos os dois, nas tardes tão grandes de domingo, a ler os livros que me davas e que ficaram para sempre. Os livros que eram as flores que não gostavas de me dar. Porque morriam para sempre. Como tu.
Agora.
Não sei o que dizer-te a cada vez que abro os livros que eram as flores e de dentro deles salta a tua bicicleta e tu todo. Tu rodeado desta cinza das asas das gaivotas. E eu, aceno-te de fora. Chamo-te.
Amor.
Tenho tentado reparar nas coisas como se existisses ainda e pedalasses em mim, como o sangue. Na bicicleta vermelha. Mas não sei para onde me escorreu a paciência. E para onde foram aquelas tardes de domingo.
Tenho tentado chamar amor, lá em baixo, a ver se me apareço cá de cima.Mas a pessoa que me aparece é sempre tão diferente de mim quando era eu que te aparecia. Nessa altura não reparava como é triste o movimento das asas das gaivotas. Nessa altura as gaivotas vestiam-se de vermelho e eram a tua bicicleta. Ou o meu sangue.
Tenho tentado chamar amor a tanta gente, em toda a parte. Aqui neste sítio. Noutro sítio. Mas é sempre a bicicleta que salta do silêncio em que me vejo, depois, mal acabo de pronunciar o amor.
(A bicicleta. Amor).
E passam diante de mim estas gaivotas.
E, na verdade, 'o que eu queria dizer-te nesta tarde nada tem em comum com as gaivotas'.

(antes publicado mais ou menos assim, sem a banda sonora, em A Vida Segue Dentro de Momentos)
* Dave Holland Quintet (8:23) in 'Not For Nothin' '

1/09/2006

Still Gotta Thing For You*













Edward Munch - Kiss


Percorrer. Te. O desejo. Nasce de um dedo. Ou de uma voz. Fala. Sento-me outra vez. Nos teus joelhos. Repetir. Uma língua de água. A fome. Como. (Não) sei o que (me) fizeste. Quando. A sede. Bebo. Escuto os teus dedos. A minha pele comove-se. Não falo. Fá-lo. Ainda. Percorre. Me. Outra vez. Mata. A fome. A sede. Ou só a mim.

* Carla Cook (6:01) in 'Simply Natural'

1/06/2006

August Moon*



Enquanto o verão não chega,
aconchega-te na fogueira do meu colo.
Vamos dançar luas de Agosto
pelas divisões da casa, pega na solidão
e atira-a janela fora contra o ar pesado
das ruas desertas, nubladas, chuvosas
deste nosso misterioso e insuportável
calendário. Aumenta o volume
e dança, põe a sombra dos objectos a dançar,
mete-te dentro da sombra dos objectos
e dança, dança sobre a luz artificial
que dá graças a todos os insectos
pouco mais do que dançantes.
Eu tenho luas de Agosto dentro de mim
no Inverno jacente, não te quero
de sorrisos mortos e mãos vazias.
Mesmo gelado, de ossos quebrados,
exausto, eu quero-te a dançar com os braços
envoltos na fogueira do meu colo.

Texto de Juraan Vink


* Benny Carter (4:26) in ‘Harlem Renaissance’

1/02/2006

From This Moment On*













Robert Doisneau


Nada mais triste. Um carrossel à chuva. Eu hoje sou o carrossel molhado. Que girou sob o sol que não havia. Mas havia. Que se deixou ficar. Parado. Ferrugento. Chiando com o vento. À chuva. Sabendo que não houve nunca sol. Mas houve. Que só a chuva é real. Mas não. Neste decisivo momento como são todos podia fingir que canto. Que não me importo de estar ao sol ou à chuva. Que não sou esta imagem de desalento ou estas notas que parecem gotas. Mas não. Nada mais triste. Não conseguir fingir. Que canto. Ou que enlouqueço.

* Brad Mehldau (7:55) in 'Live in Tokyo'