7/20/2006

Strange Fruit*














Maya Kulenovic - Great War**

«Esvaziámos os lugares da matança, retirando-lhes o peso dos nossos mortos»
E os nossos mortos serão sempre mais pesados que os mortos dos outros. Por isso esvaziamos os lugares da guerra do seu peso. Em troca deixamos frutos estranhos, carne queimada e uma colheita de horrores. E não temos vergonha. Continuamos a não ter vergonha. O vento varre-a juntamente com os corpos de centenas de homens, mulheres e crianças que tiveram a pouca sorte de não serem 'nossos'.

* Billie Holiday (3:05) in 'Lady Sings the Blues: The Billie Holiday Story, Vol. 4'

«Southern trees bear a strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black body swinging in the Southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolia sweet and fresh,
And the sudden smell of burning flesh!

Here is a fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for a tree to drop,

Here is a strange and bitter crop» **

**Outros contextos mas, no essencial, pouco diversos.

7/16/2006

Mediolistic*














Henri Matisse - Icarus - quadro VIII da série Jazz

Afinal. O que importa é a música. O jazz. O azul. Noite. As estrelas. Dançar, mesmo que se não saiba. E o coração no lugar certo. Não desfeito. Não nas mãos. Mas dentro do peito. O coração que é apenas o coração. Não uma qualquer metáfora para devaneios da cabeça. O coração que faz a sua parte. Bombear o sangue. Bater para viver o que importa. A música. O jazz. A noite. O azul. As estrelas. E as palavras.

*Al Cohn & Zoot Sims (3:29) in 'From A to Z'

7/11/2006

Feeling Good*















René Magritte - L'Art de Vivre

O sol na cabeça. Ter o sol. Na cabeça. Ou a cabeça no sol. De qualquer modo, viajar muito alto. Muito longe. Na cabeça. Com o sol. Sinto-me tão bem. Tão viva. Tão despojada das minhas costumeiras angústias que me apetece gostar do sol. Ter a cabeça no sol. Ou o sol na cabeça. Até queimar o passado todo. O passado que está morto. Que já passou. Que já não interessa. Só o sol. E a viagem. O momento da viagem. Ou cada momento da viagem. Muito alto. Muito longe. Interessa. Não o passado. Ou o futuro. Talvez nem o presente interesse. Apenas a sensação de estar viva. De escrever ao sol. Na cabeça.

* Nina Simone (2:54) in 'Feeling Good'

7/07/2006

Alegria Callada*














Sebastião Salgado - San Juan, 1979


Hoje tenho sete anos. Ainda sinto as mãos da minha mãe a entrançar os meus cabelos. Hoje tenho sete anos e borboletas na barriga. Borboletas iguais, nas cores, aos laços que a minha mãe me põe na ponta das tranças. Hoje tenho sete anos e tenho pressa. As mãos da minha mãe nos cabelos e pressa. De te encontrar sentado contra o tempo. No jardim em frente aos prédios. Na praceta da minha infância. Tenho sete anos e saio de casa a correr. Tenho sete anos e posso brincar na rua. Tenho sete anos e uma cara perfeita. Como os anjos. Tenho sete anos e a minha cara ainda não partiu numa direcção indistinta. Saio de casa a correr. Para o jardim em frente aos prédios. Páro. Com um pé atrás do outro. A sentir as asas das borboletas às voltas na barriga. Páro. Porque te vejo sentado no balouço, com o saco dos berlindes a cair-te da mão direita. Avanço um bocadinho. Avanço tudo, com a minha cara perfeita como a dos anjos. Tenho sete anos e tenho pressa. Pergunto-te - e as asas já não voam, golpeiam - queres brincar comigo? #

* Chano Domínguez (6:59) in 'Iman'

# texto publicado antes, sem banda sonora e com o título Asas e Golpes, no blog entretanto extinto - Pilar da Ponte de Tédio

6/29/2006

Anything Goes*










Juan Miró -Mujer soñando la evásion


Hoje este blog faz um ano. Este blog é sobretudo o jazz. É azul. Mas nem sempre é triste. Às vezes é. Como a vida e tudo mais. Está tudo azul. Ouve-se jazz. Um deus passeia-se comigo pela brisa das tardes**. E aqui dentro há uma espécie de calma reconciliação com tudo o que fui, sou, serei.

* Brad Mehldau Trio (7:07) in 'Anything Goes'

** Descaradamente baseada no título do livro de Mário de Carvalho - Um Deus Passeando na Brisa da Tarde

6/20/2006

Laughing At Life*










Salvador Dalí - Paysage aux Papillons

«Bad, mad and dangerous to know».
Gostei tanto desta definição, Carlos, que te dedico este sorriso da Billie. Enquanto eu mesma sorrio. As borboletas estão só na paisagem. Que é seguramente um local adequado às borboletas, quando se anuncia o verão.

* Billie Holiday (2:54) in 'The Lady Sings'

6/19/2006

Parallels*

















Jackson Pollock - Male and Female


Viveremos. É verdade. Que viveremos. Tu contra o que te dei. Eu a favor de quanto me ofereceste. Paralelos. Viveremos. Como duas linhas que jamais se encontrarão. Tendo-se já encontrado. Como duas margens de um rio. Juntas na nascente. Mas depois. Transportando a água. Para outra água. Viveremos. Certamente. Viveremos. Afastados da nascente. Velozmente. Procurando. Outra água.
Não sei onde te perdeste dos meus olhos, se ainda os tenho. Não sei onde te desencontraste das minhas mãos, se ainda são minhas. Não sei onde te esqueceste do meu corpo, se ainda o sinto. Não sei onde deixaste a minha boca. Se ainda a tenho aberta à espera dos teus dedos. Um por um. Não sei para onde foste, se ainda aqui te encontro. Mas creio saber que te vestiste. E mesmo assim. Entraste. Nessa outra água que não transporto. Enquanto eu continuo nua. Nua como quando foste tu que me vestiste. Mas de gestos. Nua como quando também estavas nu. Como quando nascíamos da mesma água e nos fazíamos dançar. Uma e outra vez. Como quando corríamos no mesmo rio. E não tínhamos margens a limitar a nossa dança. Nua à espera que regresses. Sabendo já que. Viveremos. Seguramente. Viveremos. Paralelos. Os meus olhos já esquecidos. As minhas mãos já sem magia. O meu corpo sendo apenas o meu corpo. A minha boca à procura da tua, na expectativa da água onde (nos) dançaríamos. Outra vez.

*Keith Jarret (4:58) 'Dark Intervals'

6/14/2006

Just Say I Love Him*















Paul Klee - Remembrance of a Garden

Quero dizer que o amo. Ainda. Não me custa amá-lo. Ainda. Nem não o ter. Como o tive. Completamente nu. Evidente. Não dele. Mas meu. Quero dizer que o amo. Ainda. A sua nudez. A sua evidência. Não me custa amá-lo. Apesar de não ser já meu. Não me custa amá-lo. Apesar de o ter deixado ir embora. Já tão vestido. Amo-o. Chove. E eu preciso dele. Apesar de já não o ter. Não me custa precisar dele. Chove. E eu preciso dele. Como as flores precisam da água que não nasce da terra, mas do céu. Quero dizer que o amo. Agora. Que ele caminha por outra cidade. Outra estrada. E já não é meu. Alguém o há-de ter. Como eu o tive. Alguém o verá dormir. Como um menino. Respirar. Como qualquer pessoa. Alguém o terá. Evidente. Nu. Sem ser dele. Mas quero dizer. Assim mesmo. Que o amo. Que preciso dele. Como as flores precisam da chuva. Quero dizer que me lembro. Do jardim que nascia nos seus olhos. Chove. Ninguém lhe dirá. Nem eu. Que ainda o amo. Porque não importa.

* Nina Simone (6:35) in 'Forbidden Fruit'

6/09/2006

Chair in the Sky*
















Pablo Picasso - Woman in an Armchair


Uma cadeira de braços. No céu. Ou a partir de onde eu imagine o céu. Com estrelas. Demasiadas. Um céu de inverno. Com improváveis estrelas. Frio. Uma cadeira de braços. E eu sentada nela. Tão intactos quanto possível. A cadeira. O céu. Uma intacta cadeira num intacto céu de inverno com estrelas de intacto brilho. Improváveis. E eu. Provavelmente desfragmentada. A esquizofrenia de que (ainda) não padeço porque a reconheço quando chega. Talvez já esteja nos braços da cadeira. À espera que eu me sente e tente. Reunir fragmentos do que sou e serei. E do que fui. Se. Um dia tiver uma cadeira de braços. Intacta num intacto céu de improváveis estrelas de brilho intacto. Acho que serei. Uma velha mulher. Apenas sentada numa cadeira. De braços. No céu.

* Mingus Big Band (9:05) in 'Live in Time' - Disco 2

6/05/2006

Que Pasa?*















Anselm Kiefer - Falling Stars


Nada. Não se passa nada. Absolutamente nada. Excepto só me apetecer estar dentro deste quadro de Kiefer. Deitada na erva. A olhar para o brilho das estrelas (o que me falta a mim) e não fazer nada. Absolutamente nada. Talvez pensar em ti. Perguntar às estrelas: Que pasa? E elas vão responder-me que te sentes assim feliz como eu. Por nada se passar. Por estar tudo bem. Por estares noutro sítio qualquer. Deitado noutra erva. A contemplar o brilho das estrelas. Não outras. Mas exactamente. Absolutamente as mesmas. Não se passa rigorosamente nada. E no entanto. É como se vivessemos a absoluta comunhão de tudo. Ainda. Na contemplação das estrelas. Na felicidade sossegada que é nada se passar. De podermos. Ainda. Embora cada um por seus caminhos. Deitarmo-nos na erva. E olhar para o brilho das estrelas. Com a cara toda.

* Horace Silver (7:47) in 'Song For My Father'

6/02/2006

All Right, Okay, You Win*

















Jackson Pollock - The Moon-Woman


Agora. A lua está tão crescente. E eu estou assim. A ver se não mirro. Agora. Vamos dar ritmo às estrelas. Esquecer que estão mortas. Agora. Só me apetece ser feliz. Deve ser destas noites carregadas de flor. Cobertas de cheiros. Agora. A mim também. Só me apetece estar em flor. Crescente de de dias claros. Grávida como as árvores de fruto. Coberta do cheiro das giestas e do jasmim. Deitar-me nua contigo nas ervas quentes. E fingir. Que estou na lua.

* Peggy Lee (2:53) in 'The Best of Miss Peggy Lee'

5/31/2006

Salt Peanuts*








Henri Matisse - Le Lanceur de Couteaux - quadro XV da série Jazz

Recolhimento parece ser a palavra chave para chegar ao céu. Recolhimento. Recato. Vergonha na cara. E na ponta dos dedos. As misérias pequeninas que vivemos não se expõem assim como roupa a pingar no arame. Sobretudo se a roupa estiver rota. Ou muito mal lavada. Não se expõem assim. Nem as misérias. Nem as felicidades. Nem as paixões. Nem a morte. Nem a vida, afinal, se expôe assim. Para se chegar ao céu. De alguns. Parece que o sofrimento exige silêncio. O amor implora contenção de palavras. E a vida só pode ser vivida segundo apurados princípios que não entendo. Até desconheço. Não sou mulher recatada. Nem recolhida. Faço um barulho do caraças por tudo e por nada. Não acho que a dor, ou o seu contrário, sejam tão nossas que não possam ser ditas. Isso deve fazer de mim uma péssima pessoa. Então sou. Essa pessoa péssima. Que ouve, por exemplo, esta música. E, ao mesmo tempo, tem o descaramento. A pouca-vergonha. De sofrer. E de dizer. Que sofre. Ou que ama. Ou que se apaixona. Ou que já não ama. Ou que se enganou ou a enganaram. Ou.
Sei que nada do que aqui se escreve - dor, misérias pequeninas, amores, desamores, paixões e vida - tem qualquer interesse.
Se alguma coisa tem interesse neste lugar não são as palavras. Mas a música.
De qualquer modo eu não acredito no céu
(a menos que o céu seja um lugar onde ninguém tenha morrido, onde se ouça sempre jazz, onde se possa beber uma guinness sossegadamente e onde ofereçam amendoins salgados).

* Bud Powell, Dizzie Gillespie, Charlie Parker, The Quintet, Max Roach (3:13) in 'Jazz at Massey Hall'

5/28/2006

Alone Together*















Gustav Klimt - Death and Life

Os mortos nada sabem, porque já nada podem saber. Da morte não se regressa.
Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos (nos) sabem
(certamente à força de tanto querermos que saibam).

Mesmo se, às vezes, parece que os nossos mortos regressam
(certamente à força de tanto querermos que regressem).

Não há regresso nem conhecimento para os mortos
(mesmo se, às vezes, parece que ainda há quem nos (re)conheça, estando morto).

Morreste(me). E já não podes saber nada de quem sou
(se nem eu sei!).

Já não podes saber que é a ti que procuro quando só outros encontro. Outros que não estão mortos
(mas, na verdade, tanto me fazia se estivessem).

Já não podes voltar(te) quando te chamo
(porque preciso de ti)
às vezes com o desespero de precisar só da tua mão percorrendo o meu cabelo. Outras vezes com o brutal desejo dos teus braços. E, raramente, com a certeza de que me ampararias as lágrimas.

Disfarço. Que a morte assusta os vivos. Os nossos mortos assustam-nos os vivos. E, assim sendo, para que ninguém se assuste, disfarço
(está este calor dissolvente e os mosquitos agrupam-se no vidro, na expectativa da luz).

Morreste(me) e não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que te esqueço quando procuro e, por vezes encontro, outros braços, outros corpos, outros que (me) encontram quando, por vezes, procuram. Não penses
(como se pudesses pensar ainda)
que não é a ti (e só a ti) que sigo querendo
(na expectativa da luz).

Disfarço.
(um mosquito entra dentro do quarto demasiado quente, apesar da janela fechada. Há sempre pequenas brechas para quem procura. A luz)
e mesmo assim. Nos percursos diários. As pessoas revelam-me o que, embora vivas, desconhecem. Estás com bom ar. Estás mais bonita. Que tens andado a fazer?
(A cabra! Com melhor ar! Mais bonita! Do que o antes da tua morte!).

Disfarço. Nos percursos diários. Revelam-me o que (ainda) não se sabe.

O que ainda se desconhece é que morrendo, me mataste
(e, já se sabe, aos olhos dos vivos, os mortos serão sempre mais bonitos do que alguma vez foram em vida).

Os vivos desconhecem que disfarço a vida. Que estou morta da tua morte. Que morri a morte que morreste
(na expectativa da luz)
e que cuidaste, talvez, só tua.

Os vivos desconhecem que nada sei já também. Porque nada posso já saber. Não posso regressar da (tua) morte.
Mesmo se, às vezes, parece que sei
(A cabra!)

Mesmo se, às vezes, procuro regressar
(com melhor ar! E mais bonita! Que andará a fazer?)
na expectativa da luz.

* Brad Mehldau, Lee Konitz e Charlie Haden (13:45) in ‘Alone Together’

E porque existem muitas versões, escolho também estas com que disfarço a vida. Ou a morte. Tanto faz:

Miles Davis (7:20) in 'Blue Moods'


Chet Baker (6:46) in 'Chet'


Wallace Roney (8:54) in ‘Alone Together: Essential Late Night Jazz’


5/23/2006

I Mean You*







H. Matisse - Le Destin - quadro XVI da série Jazz


Sou descrente no destino. No futuro traçado. Nas decisões tomadas como inabaláveis. Mas, por uma vez, gostaria de acreditar no destino. No futuro. Para ter a certeza. Para tomar a decisão. Inabalável. Para saber. Que estarás lá. Ou que estarás aqui. Ainda. Gostaria que este momento passasse depressa. E que o futuro não fosse assim um lugar tão longe. E tão inviolável. Por uma vez gostava de acreditar no destino. E nessas coisas assim. Para me desresponsabilizar do que foi feito. Do que foi dito. De todas as palavras que trocámos como se fossem animais selvagens em luta por um território. Por uma vez. Gostava de acreditar no destino. Para saber. Que mais tarde ou mais cedo. Uma esquina nos servirá de encontro. E que em ti haverá ainda qualquer coisa que me chama. Acreditar. Uma vez só. No futuro. E que um breve olhar nos devolverá ao princípio do que tem agora fim. Por um momento. Acreditar. Que as palavras que atirámos não foram pedras. Mas setas ao coração do silêncio. Ou da solidão. Por uma vez gostava que o destino estivesse traçado. Que houvesse um mapa do futuro. E que todas as estradas nos reconduzissem à primeira vez em que estivemos um no outro. Diluídos. Reencontrados. Sossegados.

*Art Blakey & The Jazz Messengers with Thelonious Monk (7:58) in 'Art Blakey's Jazz Messengers With Thelonious Monk'

5/18/2006

Now's The Time*












M.C. Escher -Mobius Strip

É tempo. Em tempo. De dar por perdido o tempo. Sabendo que haverá mais tempo. Para perder o tempo. Reencontrar o tempo. Ter tempo para ter tempo. Para isso existe o tempo. Para que se perca. Há um tempo perdido. Para ser esquecido. Há outro tempo. Também perdido. Que escondemos na memória. Para usar quando tivermos tempo. E lembrar. O tempo é aquilo que não nos cansamos de perder. Infinitamente.

* Miles Davis (3:17) in 'The Essential Miles Davis' - Disco 1

5/15/2006

I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes)*



Claro que vou andando. Muito bem. Bom, pelo menos o melhor possível. Excepto quando de repente o meu dedo indicador sente a falta das tuas sobrancelhas. Ou a minha língua pressente a ausência das tuas pestanas. Mas claro que vou andando. Muito bem. Ou pelo menos o melhor que posso. Excepto. Quando. Sem mais nem menos. Me esqueço de respirar. Porque me falta. O teu ar. Mas claro. Vou andando. Muito. Bem. Pelo menos. O melhor. Possível. Excepto quando toca o telefone. E não é a tua voz. Claro. Tal como disse. Vou andando sem ti. Muito bem. A menos que a manhã me lembre a ausência da tua cara na almofada. Ou o apito do comboio me revele a inutilidade de continuar na estação. Mas sim. Vou andando. Muito bem. Sem ti. Excepto às vezes. Mais concretamente quando murmuro. 'Amo-te'. E é apenas o silêncio. Dentro de mim. Que me responde. Mas então. Talvez eu deva. Não mais. Murmurar. Nunca. Nada.

* Nina Simone (4:56) in 'Nina Simone and Piano'

«I get along without you very well / Of course, I do / Except when soft rains fall / And drip from leaves then I recall / The thrill of being sheltered / In your arms / Of course, I do / But I get along without you very well / I’ve forgotten you / Just like I said I would /Of course, I have / Or maybe except when I hear your name / Someone’s laugh that’s just the same / I’ve forgotten you just like I should / What a guy / What a fool am I/ To think my aching hearth / Could keep the moon / What’s in store/ Should I phone once more /No, no, no, no, no / It’s best that I stick to my tune / I said that I get along / Without you very well / Of course, I do / Except perhaps in spring / But then I should never /Ever think of spring /For that would /Surely break my heart in two»

5/12/2006

Just in Time*









Salvador Dalí - The Persistence of Memory

Das palavras sobram mãos vazias. Olhos desfeitos no assombro. Boca suspensa no espanto. Das palavras sobra a sombra. Persistente. É possível. Porque tudo é possível. Escrever intensamente. Mesmo sem mãos. Sem olhos. Sem boca. É possível escrever. Intensamente. Mesmo sem sangue nas veias. Das palavras sobra a sombra. Fria. Um instante apenas. Em que nos esquecemos. Da memória. Talvez. Propositadamente. Para fingir. Ou acreditar. Tanto faz. Que além das palavras havia os gestos. E os olhos. E a boca. E as mãos. E o sangue. Das palavras assombrosas sobra a sombra. Uma sombra que se espalha. À medida que o sangue volta a ser o nosso. Uma sombra que se estende numa inundação de mágoa. Mas cresce. Mesmo a tempo. Do reencontro com a memória. Dos gestos lá atrás. De tal modo intensos. Que as palavras não lhes beberam o sangue. Mesmo a tempo. Recupera-se a memória. Mesmo a tempo. Respiramos. Mesmo a tempo. O sangue corre. Os olhos desassombram-se. A boca encontra o beijo. Os gestos voltam às mãos. Mesmo a tempo. Encontramos a memória. Mesmo a tempo. Perder-nos-emos. Outra vez.

* Sonny Rollins (3:55) in 'The Freelance Years: The Complete Riverside and Contemporary Recordings' - Disco 3

5/08/2006

So What*














René Magritte - The Unexpected Answer

Não era uma porta. Afinal. Era um coração. Quando um coração se fecha faz um barulho do caraças. Quando um coração se fecha faz um barulho i n s u p o r t á v e l. E eu à espera do buraco na porta. E eu à espera do buraco no coração. Eu. Que faço ainda eu aqui. Com este buraco cá dentro? Nenhuma resposta. Um coração fechado. Com muita força. Outro com um buraco. E depois? E então? Ninguém morreu dizem-me. Ninguém se feriu com gravidade. Repetem-me. Um acidente inconsequente, portanto. Lamentável. Mas. Ainda. Assim. Inconsequente. E depois? E então? A porta fecha. O coração fecha. O buraco há-de coser-se com linha grossa. A cicatriz ficará horrível, já se sabe. Mas ninguém morreu. Ninguém se feriu com gravidade. Voltam a repetir. Me. Bateu-se com a cabeça nas paredes. Com o carro contra uma árvore. Com a puta da existência contra o que de pior somos. A vida continua. Fácil e leve. Como sempre. E depois? E então? Ora. Há-de aparecer alguém. Numa curva lá mais para a frente. Alguém a quem se dará boleia. Alguém que. Quando te despires completamente. Verá a cicatriz horrível. Mas não te fará perguntas. Nem quererá respostas. Limitar-se-à a passar o dedo pelos altos da carne mal cerzida. E compreenderá os teus dias bons. Os teus dias (demasiado) maus. O teu lado do sol. E o teu lado (muito) escuro . Com sorte. Alguém que. Te descoserá a cicatriz e com linha de seda e mãos seguras te recuperará a pele. O coração. A porta. E depois? E então? Nada. É mesmo assim. Um coração quando se fecha faz um barulho indescritível. Quando se abre, o coração, é num silêncio absoluto e límpido. O silêncio com que estranhamente se aceitam as pessoas mortas. As pessoas feridas. As pessoas (des)conhecidas. Apesar de tudo.

* Miles Davis (9:25) in 'Kind of Blue'

5/05/2006

Chaos*













M.C. Escher - Illusion, an Ordered Confusion
Sossega. Te. Tudo tende para o caos. Até o que sentes. Ou. Principalmente. O que sentes. Não há calma. Mas sossega. Te. Sabes. Que. Quem é. Já foi. Quem foi. Volta a ser. Quem não é ou foi. Há-de ser. O que sentes talvez nem sequer já seja. Perdeu a importância. Não foi? Porque nem sabes o que sentes. Agora. Falas-me de raiva. E eu atiro-te com a paciência. Falas-me de banalização. Eu atiro-te com o sentido da palavra amor. Pouco banal. O meu sentido. O que tu não conheces. Tudo isto. Vais ver. Já passa. Em breve. Sossegarás. E serás o que antes eras. Não sei o quê. Sei lá o quê. O que eras. Antes. Deste caos. Para onde nos atirei. Estou cansada. Também. De que o amor se esgote. Assim. De que o amor acabe. Assim. De que as pessoas procurem. Apenas. Sossegar. Se. Desculpa. Me. Se fui única. E sou já tão vulgar.

* Wayne Shorter (6:54) in 'The All Seeing Eye'

5/03/2006

Blue Bolero*








Salvador Dalí - Melancholy Atomic

Afinal. Nenhuma palavra. Poderá salvar. O mundo. Ou outra coisa qualquer. Afinal essa palavra não me salvou do frio. Afinal eu amo-te. E afinal. A palavra. Essa. Já não tem sentido. Afinal. O deserto é azul. Afinal. Que te pode interessar tudo isto agora?

*Abdullah Ibrahim (o tempo que demorou a tua mão na minha) in 'African Magic'

4/27/2006

Blue Skies*










René Magritte - La Promesse

Não é como se uma única palavra tua me salvasse. Mas dizes-me uma palavra. Essa. E acontece que me salvas. Salvas-me de mim. Do que (não) era capaz. Muitas coisas vão desaparecendo. E no seu lugar. Outras coisas. Nascem. Como eu nasço. Salva. Ou limpa. Quando me dizes a única palavra que me parece possível. Entre nós. Como eu nasço para ti. Nas tuas mãos. Ou no teu peito. E não haverá mais nada. Que não céus azuis. Pássaros azuis. Dias claros. Horas inteiras. Instantes tranquilos nos teus olhos. Olho-me, salva, ao espelho. E penso. Em que céus azuis voavas tu que não vinhas ensinar-me a felicidade? Não é como se uma única palavra tua me salvasse. Mas dizes-me. A única palavra. Que importa. No mundo. E acontece. Que me salvas.

*Dinah Washington (7:52 ) in 'After Hours with Miss D'

4/20/2006

Soul of Things*










René Magritte - The Lovers

Não te vejo. Amor. Eu não te oiço. Estou cega. E quero seguir-te. Sem que as coisas tenham peso. Apenas a substância dos sentidos. Sem tempo. E quero seguir-te. Guiada apenas pelo toque dos teus dedos. Não te vejo. Não te oiço. Às vezes não existo. Outros homens cruzam os seus olhares com o meu. Mas eu estou cega. E não os oiço. E não os sigo. E era fácil. Ser guiada por outros dedos que não os teus. Porque. Às vezes. Quero. Ver. E ouvir. E sentir o que não pode ser visto ou dito. Quero seguir. Te. E não há guias. Às vezes há este deserto. Amor. E não te vejo. E não te ouço. E. Nem sequer. Sinto. Que estás aqui. Às vezes há este deserto. Dissolvente.

* Tomasz Stanko Quartet (5:41) in 'Soul of Things'

4/18/2006

Il N'Y A Pas D'Amour Heureux*













Il est déjà trop tard. Pour moi. Trop tard pour t'aimer comme t'as besoin d'être aimé. Je suis désolée. Je ne sais pas quoi faire. On dit que l'amour suffit pour faire tourner le monde. L'amour ou... disons... un tournesol. Mais l'amour il ne suffit pas. Et tu le sais. Le monde est grand et moi... moi je suis trop petite. Pour toi. Pour tout ce qui tu veux de moi. Du monde. De l'amour. De la vie. Moi... j'ai rêvé qui je voudrait exactement la même chose. Mais il était un mensonge. Je suis pas capable de t’aimer comme tu mérites. Je suis pas capable de faire partie de la religion du tournesol. Je parts. Et, en partant, je sais qui je t’aime. Et qui tu… toi aussi… tu m’aimes. Mais. Il y est trop tard pour moi. Pour t’aimer. Pour avoir un amour heureux. Je n’ai pas du temps. Et surtout je n’ai pas du talent.

*Nina Simone (6:25) in 'A Single Woman'

4/06/2006

Someone To Watch Over Me*









Anselm Kiefer - girassois

Olha. Vem ouvir(me). Estava perdida num campo de girassois. Para sempre. Ouve(me). Não sei como me encontraste. Mas vieste. A realidade. Deixou de ser importante. E tu vieste. Num campo de girassois. Quem anda perdido. Raramente se encontra. Demasiadas distracções. Ou assim. Quem anda perdido. Raramente encontra. Quer dizer. Precisa que o encontrem. De tanto (não) andar à procura. Ou assim. E tu chegaste. Não sei de onde vieste. Deixou de ser importante. Tudo. Qualquer coisa. Desapareceu. Porque quando vieste. Para me encontrar. Devolveste-me o que eu desconhecia. De mim. Esta vontade irracional. De me fechar numa caixa. Ou assim. Só. Para que tomes. Conta. De mim.

* Chet Baker (3:03) in 'My Funny Valentine'

3/30/2006

Blue Sands*












Descubro dentro de um caderno de apontamentos (e que apontava eu, nessa época, de tão diferente, do que hoje aponto?) o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, foram importantes. Reconheço-o como quem recupera a evidência do amor que teve. Dentro do caderno a carta. Sob o último malmequer amarelo de todos os malmequeres que, alguma vez, me deste. Dentro da carta o desenho. Dentro da carta o silêncio que as palavras pesadas encerram. Dentro da carta e do desenho e do silêncio das palavras. Eu. O asteroide. A estrela cadente. O castanheiro. A raposinha. Eu. E a voz com que me lias, para eu adormecer, a passagem em que a raposa explica ao pequeno princípe o que é cativar. Dentro da carta e do desenho e das palavras agora abandonadas. Um pouco tristes. Agora. A tua voz quando me interrompias a vida, para me anunciar, digamos, coisas tão subitamente urgentes como: já reparaste que os castanheiros estão em flor, meu amor? E eu não. Claro. Eu não tinha reparado na urgência com que florescem os castanheiros. Porque ninguém me havia feito notar que todos os castanheiros ao florescer era por mim que o faziam. Dentro da carta a tua voz. Raposinha. E as areias do deserto. O deserto para onde lançaste um frágil barco. E o profundo azul do mar para onde lançaste as dúvidas de me teres e não me teres. E de onde tiraste todos os malmequeres amarelos, incluindo este, que acompanharam todos os momentos em que as nossas mãos, cheias um do outro, se encheram mais. Todos os instantes em que o universo descansou nos nossos corpos. Todos os momentos em que a perfeição nos visitou. Depois de eu ter atirado o último malmequer amarelo de todos os malmequeres amarelos que, alguma vez, me importaram, para dentro do caderno onde apontava a respiração. Assombraste-me outra vez com a vastidão do teu amor. Apesar do malmequer seco. Dentro dos apontamentos. Acho que nunca te disse obrigada. Nunca fechei o caderno. Nunca rasguei a carta. Nem o desenho. Nunca acabei de te esquecer. E hoje. Faço-o. Hoje regresso ao deserto. De outras areias. Regresso ao profundo azul. De um outro mar.

* Chico Hamilton Quintet (6:30) in 'The West Coast Jazz Box, an Anthology of California Jazz'

3/29/2006

Things Behind The Sun*













Anselm Kiefer - Sol invictus

Não me digam que a beleza não magoa. Sobretudo. Não me digam que a beleza não mata. Não me digam que as palavras ao construirem as pontes. Os nós. As cadeias. As teias. Não desconstroem. Também. Tudo. Não me digam que tudo pode ser dito. Sobretudo. Não me digam que a beleza pode ser dita. Sempre. Não me digam que há coisas para além do sol. Quando as que se encontram aquém dele. Até onde o olhar e os demais sentidos podem alcançar. São. Insuportávelmente. Belas. Mesmo depois de queimadas. Não me digam que o amor não magoa. Que o amor não mata. Que a construção do próprio amor. Não destrói. Sempre. Qualquer coisa. Mesmo que o amor seja absoluto. Absolutamente verdadeiro. Não me digam que as pétalas dos girassóis sempre estarão vivas. E que a beleza é isso. Porque. Há demasiada e demasiadamente violenta beleza num girassol desfeito. Para cá. Do sol. Ou das restantes. Estrelas. Há demasiada beleza. Uma insuportável beleza. Neste amor. Que me destrói.

* Brad Mehldau (4:37) in 'Live in Tokyo'

3/26/2006

Fascinating Rhythm*



Imaginem que me encontrei completamente perdida exactamente no meio das cores demasiado vibrantes de um musical dos anos cinquenta. O cabelo, demasiado louro para ser sério, cai-me em cachos demasiado perfeitos. O technicolor acentua-me a cor vermelha, demasiado vermelha para que seja de verdade, da boca. Imaginem que me encontro. Imaginem que há este rapaz, cujo ritmo fascinante me diz que as cores estão todas certas. Que os cachos são mesmos louros. Que a boca é mesmo vermelha. Que se pode dançar para sempre dentro de uma película. Imaginem que me encontro. Completamente. Dentro. De um musical. De onde. Não quero. Sair.

*Ella Fitzgerald (3:21) in 'Ella Fitzgerald Sings The Gershwin Songbook'

3/24/2006

In a Sentimental Mood*













Aqui tens uma das minhas orelhas. Uma orelha perfeita. Para a tua voz. Ou até para o que, sem ela, escuto de ti. Aqui tens a minha pequeníssima orelha para tudo o que quiseres que eu ouça. E para tudo o que nunca me deixarás ouvir. Aqui tens a minha orelha pequenina para todas as tuas constelações de sons. Coisa mais improvável esta. Estar sentimental. Estar disponível para, com os sentidos todos, ficar quieta enquanto a tempestade se anuncia. Para permanecer. Assim. Urgentemente.

*John Coltrane (4:17) in 'Coltrane For Lovers'

Também acho que se impõe a versão da Sarah Vaughan (4:03) in 'After Hours'

3/22/2006

If You Could See Me Now*











Joan Miró - Blue

Acendo um cigarro. Estou disponível para o amor. O fumo espalha-se como fino nevoeiro após um dia muito quente. Nas terras que ficam perto da água. Estou disponível para qualquer coisa. Agora que já não estás. Que já não acendes no meu o teu cigarro. Encontro-me disponível para tudo. Disponível para a tristeza. Talvez. De ainda estar disponível para (te) amar. Não estando tu já aqui. Disponível para qualquer coisa que substitua. O cigarro. A tristeza. Tu. Disponível para a impossibilidade de te reencontrar na esquina do costume, afastando o cabelo com a ponta dos dedos. Segurando o cigarro na outra mão. Semicerrando os olhos para me veres melhor. Disponível para a improbabilidade de um encontro com alguém com quem, mesmo se vagamente, te pareças.

* Sheila Jordan (4:30) in 'Portrait of Sheila Jordan'

3/20/2006

Body and Soul*



Passou o inverno. Os dias em que caminhámos pela cidade, afagando docemente as bátegas de chuva que caíam nas nossas mãos. Ao sairmos do cinema, os nossos olhos mergulhavam na bruma das luzes caleidoscópicas da cidade, ainda cheios de imagens vívidas e quentes dos cenários e dos diálogos e irónicos que, inevitavelmente, acabavamos sempre por transportar para os temas das nossas longas e profundas conversas. E, ainda assim, sempre disseste que a esperança não habitava o fundo do teu olhar, apenas por ser inverno. E agora, ele partiu. Despontam as primeiras flores, girassóis, tulipas e as árvores renascem insufladas de um novo sopro de vida. São os primeiros dias de primavera. E o teu olhar é um nítido fresco de cores que não sei designar porque me escapa a intensidade do teu sentimento. Vou aprendendo a compreendê-lo intimamente. Ah, e não me esquecerei de te oferecer um girassol para que possas colocar entre as flores mais sagradas do teu jardim, sem dúvida para te dizer: não olhes para trás.

Texto de Bruno

*Freddie Hubbard (4:36) in'The Body and The Soul of Freddie Hubbard'

3/14/2006

She's Leaving Home*



Ela saiu-me! [finalmente!] Saiu-me de cá dentro, da minha vida, da vida que não tinha, que era nossa. Saiu-me e levou-me em parte com ela [não sei quanto de mim partiu]. Bem, mas ela saiu e isso é que me interessa. Estou só. Ela saiu. Fiquei só como pretendia, como sempre lhe disse que queria, sem mim [disparate! Sem ela!] Não importa sei que fiquei, ainda me conseguirei restar alguma coisa. Não precisarei de buscar muito para me voltar a rever, para me reencontrar, para encontrar quem fui em tempos [já sabes lá tu quem serias em tempos!]. Eu bem sei quem era! Ela saiu-me e eu estou a morrer! Com a minha falta, estou a morrer. Com a falta de mim, da parte que ela me levou.

Fazes-me falta! … Volta! Volta por favor e dá-me, ainda me tens!?

Texto de JOS

*Brad Mehldau Trio (9:07) in 'Day is Done'

3/09/2006

The Well-Wisher*












Pablo Picasso - Petites Fleurs

Em mim sobrevivem ainda pequenos grãos de optimismo. Uso-os agora. Para desejar o melhor. A todos nós. Para desejar que o Portugal futuro seja um país em que, como dizia Ruy Belo, o puro pássaro é possível.

* Esbjörn Svensson Trio (3:47) in 'Viaticum'

2/24/2006

Speak No Evil*













Paula Rego - No Deserto

Passar pelas pessoas sem lhes causar dano. Não usar as palavras erradas. Nunca. Não causar dano. Não dizer nada que magoe. Ofenda. Doa. Ou mesmo. Toque. Ser invisível. Estar no meio de coisa nenhuma e ser invisível. Não existir. Não desejar mal. Ou bem. Não desejar. Não fazer mal. Não fazer bem. Não fazer nada. Estar sem ser vista. Sentir sem ser sentida. Não pressentir. Não anunciar. Não usar palavras. Calar-me. Estar no deserto. Só. Ajoelhar-me. Pedir que não me façam mal. Ou bem. Ou nada. Não querer que queiram nada de mim. Não querer nada. De ninguém. Nunca.

* Wayne Shorter (8:21) in 'Footprints: The Life and Music of Wayne Shorter' ou in 'Speak No Evil'

2/10/2006

Let's Face The Music And Dance*











Picasso - Mulheres correndo na praia

Tempos difíceis. Já sabemos. Antes que nos peçam para pagar uma qualquer conta que o carteiro não nos trouxe (mesmo se as contas. Sejam já a única coisa. Que o carteiro nos traz)... será bom lembrarmo-nos que haverá sempre qualquer coisa que nos é oferecida. Luar. Música. Amor. Romance. Mesmo que a conta a pagar seja alta. Por nos termos esquecido de qualquer coisa. Lá atrás. Ou por termos dado tudo. Mais adiante. Lembremo-nos que por enquanto ainda há. Luar. Música. Amor. Romance. E palavras para ler e para dizer. Palavras diferentes. De Problemas. De contas. De deves. E de haveres. E de teres. Palavras que nada custam. Movimentos que não encerram intenções. Por enquanto ainda há. Boas inquietações. E razões. Para enfrentar a música e dançar. Como se não viessem daqui a pouco. As contas. Para pagar.

*Escolhi para o Carlos Azevedo a versão da Anita O'Day (3:16) in 'Pick Yourself Up'
Mas gosto também destas versões:
Ella Fitzgerald (2:56) in 'The Complete Ella Fitzgerald Song Books'


Sheila Jordan (1:15) in 'Portrait of Sheila Jordan'


Diana Krall (5.18 ) in 'When I Look in Your Eyes'

2/03/2006

A Song I Used to Play*












Eu antes sabia cantar. Fiava. Sabia. Cantar. Canções. Nos fios. Que fiava. Sabia. Cantar. Eu antes era. O que sabia. Hoje sou. O que já me esqueci. Tecidos os fios. Que fiei. Cantadas as canções. Que sabia. Eu antes desconhecia. Que há música bastante nos mapas que as rugas traçam. No entrelaçado das fibras. Eu antes sabia. Cantar. E fiar. Hoje sei que a música se calará. Que não se fia a vida. Só se tece. E entrelaça.

* Arild Andersen (2:45) in 'A Molde Concert'

2/01/2006

What Do You Want?*



Maria, que me queres?** A mim, que me esforço por evitar correntes, a não ser as dos afectos e possuo bem mais manias que cinco? Que me queres tu, Maria? Que exponha as minhas pequenas idiossincrasias, já que as grandes, nem às paredes confesso, quanto mais aos telhados de vidro da blogosfera!? Pois, Maria, eu se pudesse resumir-me, dir-te-ia que tenho
- A mania de acreditar. De achar que é sempre tudo novo. Mesmo que nada mude. E que tudo, indefinidamente, se repita.
- A mania de gostar de palavras. Da palavra vento. Da palavra casa. Da palavra pedra. Da palavra inquietude. Da palavra árvore. E de girassois.
- A mania completamente prosaica das limpezas. E da ordem. Mania que me custa muitas tarefas, incluindo as que não pedi. E as que não gosto.
- A mania de cheirar os livros, quando os abro. Os novos e os velhos. De reconhecer neles qualquer coisa que os olhos não detectam. Nem os restantes sentidos.
- A mania de dizer muitas vezes a mesma coisa. Aos outros. E a mim.
Não sei, Maria, se era isto que me querias.
Não sei, Maria, se os meus escolhidos continuarão a corrente.
- improvisos ao sul
- a forma do jazz
- a espuma dos dias
- a natureza do mal
- mentes inquietas

*Pat Metheny (5:24) in ' Trio 99>00'
** Parece que se tratou de um repto lançado por En Defensa de Occidente a um Misantropo Enjaulado (há outra maneira de ser Misantropo?) e que temos que listar cinco manias.

1/30/2006

When You're in My Arms*










Robert Doisneau

Não acontece mais nada. Deixa-te ficar. Não quero que aconteça. Mesmo. Mais. Nada. Só isto. Os teus braços. O universo todo. Aqui. E posso fingir que morri. Ou que continuo viva. Deixa-te ficar. Como se fosse possível não acontecer nunca mais. Nada. Depois.

*John Griffin & Martial Solal (6:42) in 'In and Out'

1/23/2006

Up Against the Wall*











Não. Não. Este não é o presidente que escolhi. Recupero o folêgo. Não lamento as expectativas. Escondo o desalento. Respiro fundo o que posso respirar. Cerro os dentes. Encerro a consciência da dor. Lembro-me como era. Antes. Eu. Recordo. Me. Que a democracia é (também) isto. E escolho ficar de pé. Contra este muro. Afasto o embaraço de ser portuguesa hoje. Ou sempre. Como possível. E escolho. Ficar. De pé. Animadamente. Como a música. De pé. E contra.

* John Coltrane (3:19) in 'Impressions'

1/16/2006

Song For Sarah*












É nas tuas mãos que encontro o que não perdi. E o que não peço. Como se as minhas fossem. Estou suspensa nas tuas mãos. Como nas minhas. Estou suspensa na noite. E grito. Até ficar com os nós dos dedos brancos. Grito na noite. Suspensa nas tuas mãos onde (me) encontro. Sem estar perdida. E, todavia, achada que estou. É das tuas mãos. Que eu preciso. Agora.

* Tomasz Stanko Quartet (5:33) in ‘Suspended Night’

1/11/2006

For All You Are*



Passam diante de mim estas gaivotas. E o que tenho para te dizer... é o absurdo de tudo isto. Absurda a água que vejo da janela. O dia cinzento. Esta água cinzenta que me aproxima do mar. Como a ti te aproximava. Embora eu, sem a bicicleta em que voavas. Com as gaivotas. Nestas tardes assim. Paradas.
Estreito o convívio com as gaivotas, nestes dias. Sem ti. Nestes longuíssimos dias. Em que me entretenho. A enganar a tua morte. Ou a minha vida. O que é o mesmo. O treino diário a que me obriga a evidência da tua morte faz-me tão diferente do que fui quando ainda estavas vivo e agarravas a bicicleta
(era vermelha a tua bicicleta. Dei a tua bicicleta vermelha. E às vezes vejo o teu pai passar montado nela. Agarrado a ela como se agarraria a ti se soubesse que um dia a tua bicicleta vermelha ficaria para trás, na precipitação da tua morte). Absurdo este reparar no movimento das asas das gaivotas sobre as águas cinzentas da ria. Num dia assim. Cinzento e murcho. Como as pétalas das flores que raramente me davas. Morrem depressa as flores. Como tu. Guardaste toda a fragilidade das pétalas para o dia em que, absurdamente, deixaste de agarrar a bicicleta
(era vermelha e ainda é).
Partias com tanto vento que, ao ver-te pedalar, não se via em ti a morte, mas a vida.
E estas gaivotas rasantes a estas janelas tão grandes onde, às vezes, lá em baixo, vinhas chamar-me.
Amor.
E eu escancarava a janela e perguntava-te se querias subir tu ou se descia eu. Escolhe tu. Dizias. E a bicicleta
(vermelha)
agarrada à tua mão. E eu escolhia. E às vezes era eu que descia e outras eras tu que subias. Dessas vezes, deixavas a bicicleta
(que sem ti, era sempre vermelha, mas não tinha asas, parecia uma gaivota murcha) encostada à porta do sítio onde tenho esta janela grande, com a ria ao fundo e as gaivotas rasantes. Deste sítio em que vou perdendo os dias. Todos os dias em que não estive contigo. E não ganhei o teu sorriso. Ou, simplesmente, a tua vida. Deste sítio onde estou agora. Tão diferente. Deste sítio de onde não quero sair porque me parece que hás-de aparecer lá em baixo, com a bicicleta vermelha, que agora roubaste ao teu pai, para me chamar.
Amor.
Não sei o que dizer-te desta diferença que sinto no modo como reparo agora nas coisas todas só para perceber que não existes. Que já não nos sentamos os dois, nas tardes tão grandes de domingo, a ler os livros que me davas e que ficaram para sempre. Os livros que eram as flores que não gostavas de me dar. Porque morriam para sempre. Como tu.
Agora.
Não sei o que dizer-te a cada vez que abro os livros que eram as flores e de dentro deles salta a tua bicicleta e tu todo. Tu rodeado desta cinza das asas das gaivotas. E eu, aceno-te de fora. Chamo-te.
Amor.
Tenho tentado reparar nas coisas como se existisses ainda e pedalasses em mim, como o sangue. Na bicicleta vermelha. Mas não sei para onde me escorreu a paciência. E para onde foram aquelas tardes de domingo.
Tenho tentado chamar amor, lá em baixo, a ver se me apareço cá de cima.Mas a pessoa que me aparece é sempre tão diferente de mim quando era eu que te aparecia. Nessa altura não reparava como é triste o movimento das asas das gaivotas. Nessa altura as gaivotas vestiam-se de vermelho e eram a tua bicicleta. Ou o meu sangue.
Tenho tentado chamar amor a tanta gente, em toda a parte. Aqui neste sítio. Noutro sítio. Mas é sempre a bicicleta que salta do silêncio em que me vejo, depois, mal acabo de pronunciar o amor.
(A bicicleta. Amor).
E passam diante de mim estas gaivotas.
E, na verdade, 'o que eu queria dizer-te nesta tarde nada tem em comum com as gaivotas'.

(antes publicado mais ou menos assim, sem a banda sonora, em A Vida Segue Dentro de Momentos)
* Dave Holland Quintet (8:23) in 'Not For Nothin' '

1/09/2006

Still Gotta Thing For You*













Edward Munch - Kiss


Percorrer. Te. O desejo. Nasce de um dedo. Ou de uma voz. Fala. Sento-me outra vez. Nos teus joelhos. Repetir. Uma língua de água. A fome. Como. (Não) sei o que (me) fizeste. Quando. A sede. Bebo. Escuto os teus dedos. A minha pele comove-se. Não falo. Fá-lo. Ainda. Percorre. Me. Outra vez. Mata. A fome. A sede. Ou só a mim.

* Carla Cook (6:01) in 'Simply Natural'

1/06/2006

August Moon*



Enquanto o verão não chega,
aconchega-te na fogueira do meu colo.
Vamos dançar luas de Agosto
pelas divisões da casa, pega na solidão
e atira-a janela fora contra o ar pesado
das ruas desertas, nubladas, chuvosas
deste nosso misterioso e insuportável
calendário. Aumenta o volume
e dança, põe a sombra dos objectos a dançar,
mete-te dentro da sombra dos objectos
e dança, dança sobre a luz artificial
que dá graças a todos os insectos
pouco mais do que dançantes.
Eu tenho luas de Agosto dentro de mim
no Inverno jacente, não te quero
de sorrisos mortos e mãos vazias.
Mesmo gelado, de ossos quebrados,
exausto, eu quero-te a dançar com os braços
envoltos na fogueira do meu colo.

Texto de Juraan Vink


* Benny Carter (4:26) in ‘Harlem Renaissance’

1/02/2006

From This Moment On*













Robert Doisneau


Nada mais triste. Um carrossel à chuva. Eu hoje sou o carrossel molhado. Que girou sob o sol que não havia. Mas havia. Que se deixou ficar. Parado. Ferrugento. Chiando com o vento. À chuva. Sabendo que não houve nunca sol. Mas houve. Que só a chuva é real. Mas não. Neste decisivo momento como são todos podia fingir que canto. Que não me importo de estar ao sol ou à chuva. Que não sou esta imagem de desalento ou estas notas que parecem gotas. Mas não. Nada mais triste. Não conseguir fingir. Que canto. Ou que enlouqueço.

* Brad Mehldau (7:55) in 'Live in Tokyo'

12/15/2005

The Christmas Song*














Pablo Picasso - Paz na Terra


Feliz Natal!!

* respectivamente:
1) Mel Torme (2:45) in 'The Very Best of Christmas Jazz'
2) Carmen McRae (3:55) in 'Jazz Christmas'
3) Nat King Cole (3:10 ) in 'The Christmas Song'

12/12/2005

Whatever Lola Wants*














Budapeste, 2005

Quero o teu coração. Quero a tua alma. Quero-te todo. E não me digas que não sou capaz. Porque serei sempre capaz de te ter. Até mesmo de te reduzir a um artifício. Ao fogo que explodirá. Quando e como eu quiser. E se eu quiser. Sou irresistivel. Para ti. Não tens como fugir do artifício. Do fogo. Estás preso na noite. Como eu. Mas eu sou uma mulher. Não há artifício maior.

*Carmen McRae (3:00) in 'Carmen McRae's Finest Hour'

12/05/2005

I Put a Spell on You*













Houve um tempo em que eu era capaz de mexer na luz. Agora abro os olhos e nunca encontro nada. Há esta escuridão. Que invadiu tudo. Houve um tempo em que, mesmo sem te tocar, te desfazias na luz. Eras a ideia. A casa. A pessoa. O lugar. O nome. Para as coisas. Para a vida. Estavas nas minhas mãos. Como eu nas tuas. Abertas sempre. Houve um tempo em que acendias a luz. Só para ver se eu ainda estava lá. Confirmavas-me. Houve um tempo em que pusemos feitiços nas mãos um do outro. Depois apagámos a luz. Guardámos a magia nos bolsos. E esquecemo-nos. E eu. Há dias destes. E eu. Não sei ainda o que faço aqui. Com esta luz nas mãos. Sem as tuas.

* Nina Simone (2:38) in 'Nina Simone's Finest Hour'

12/04/2005

Last Train Home*









Henri Cartier Bresson Roumanie, 1975


Apanhamos um comboio. Tomamos o nosso lugar. De repente nascem todas as possibilidades. Até à estação pouco a pouco. À medida e na velocidade a que se devora a terra, tudo pode ser. O que não é. Ou que é. Ou será. É o mesmo. Apanhamos o comboio. O mesmo. Ou outro. Tanto faz. E de repente tudo deixou de ser. Ou poder ser. Não é, não será. Nunca pareceu ser. Nunca foi. A terra devorou a velocidade. A terra aniquilou toda a urgência. Mesmo se pouca. Era possível. Deixamos lábios. E olhos. E mãos. Abertos e vazios. Sem nada. Deixamos atrás da terra as gotas da chuva na urgência de alguém. Apanhamos o comboio. E a terra molhada não parou de se comprimir atrás de nós. Até não respirar. Até reter toda a água. Toda a terra. Toda a possibilidade. Todo o ser. Toda a urgência. Até reter tudo. Até morrer. Na estação.

* Pat Metheny (4:35) in 'One Quiet Night'

11/29/2005

Right Before*










Anselm Kiefer - Red Sea

escrevo. te. com letras pequenas. sempre. para não fazer muito barulho. escrevo-te enquanto sinto um mar. a invadir as minhas mãos. da cor que não gostas. mas é vermelho o mar. que sinto. mesmo que não gostes da cor. não há outra cor para o que sinto. este mar. tanto. invadir. me. as mãos. escrevo. te. baixinho. para que não acordes. como na música. não grito. não falo. não te olho. escrevo. te. apenas. antes. antes. de. apenas. gosto de te saber aí. por onde andas. nas ondas. gosto de saber que vou contigo. mesmo com a errada cor que assumem as pessoas que entram, talvez tarde, talvez cedo. demais. ou na exacta hora. gosto de saber que fazes essas perguntas. e gosto de saber que sabes que eu também faço as perguntas. essas. mesmo antes de. escrevo baixinho. não sou capaz de te dizer nada. alto. ou nada. mesmo. não sou capaz de pensar em ti sem ser baixinho. e devagar. como a invasão do mar. quando está calmo. mas avança. desta ou de qualquer outra. cor. as mãos não pensam. tenho medo de te acordar do teu próprio mar. tenho medo de pensar com qualquer outra coisa que não. sejam. as mãos. não sei se serão as mesmas. as mãos. e tenho medo. como eu. sabes. conheces esta sensação de antes de. antes que. antes que aconteça. antes que seja. podia ficar assim. para sempre. com as ondas. a invadir-me. as mãos. e depois deixá-las tomar conta do resto. a boca. os olhos. o nariz. os braços. as pernas. o sexo. os cabelos. quantas vezes te deixaste ir. assim. quantas. e no entanto. é sempre a primeira vez que o mar te invade. assim. docemente. longamente. mesmo antes. de... escrevo-te. baixinho. devagar. como quem dorme. como dormimos. mesmo depois. de. tenho medo. que já estejas acordado. e seja tudo. verdade. até o mar. até a cor do mar.

* David Binney (9:09) in 'Bastion of Sanity'

11/21/2005

Solitaire*













E. Munch - Puberty

Estamos sempre sozinhos, não é? E nus, não é? Por mais que enfeitemos o corpo e os dias com vestes e artes de disfarce. Estamos sempre sozinhos, não é? Padecendo dessa solidão assustada que responde à pergunta que nem sempre formulamos alto, mas que nos acompanha os ossos e a carne e os gestos: quem sou eu? Mesmo vestidos do que queremos ser, somos sempre nós, sozinhos, assustados, frágeis, pobres, evidentes e nus!

* Uri Caine (5:22) in 'Solitaire'

11/09/2005

Soul is Free*












Guy Le Querrec, 1997, CD 'Suite Africaine' booklet

Podia dizer(te) coisas como 'a minha alma partiu-se como um vaso vazio'#. Mas não. Não tenho alma. E se a tivesse não se partiria como um vazio vaso. Não se partiria. Pronto. Não se partiria porque seria livre. E uma alma livre não parte. Apenas vacila. Mas não tenho alma. E se a tivesse, provavelmente não seria livre. Sou livre porque não tenho alma que se parta ao toque, vazia, como um vaso. Porque não tenho alma. Sou preguiçosa demais para ter alma. Mas se a tivesse, estaria agora a pensar como torná-la livre. Assim sou livre e estou livre do trabalho que ter uma alma me daria.

*Aldo Romano, Louis Sclavis, Henri Texier (5:17) in 'Suite Africaine'

# frase do poema 'Apontamento' de Álvaro de Campos

10/28/2005

The Sidewinder*





Uma sidewinder. Fotografia tirada daqui

Deixei uma vida atrás de ti. Nas tuas sombras. Nos teus percursos. Seria a vida que viveria se os caminhos se traçassem a direito. Se os instantes não fossem decisivos. Deixei uma vida escondida nos teus cabelos. Outra aberta nas tuas mãos. Outra que só os teus olhos perceberam. Não sei o que vais fazer com todas essas formas de vida que poderiam ter sido, se os caminhos se percorressem a direito. Se houvesse um sentido qualquer para as coisas. Se houvesse um destino em que acreditar. Eu vou serpentear pelas montanhas quietas. Ter a sensação de que nos teus cabelos, nas tuas mãos e nos teus olhos, estive sempre sozinha. Que sempre fiz o que me apeteceu com a vida que deixei atrás de ti. E adiante.

* Lee Morgan (10:16) in ‘The Sidewinder’

10/26/2005

Resignation*













De nós, se houve nós, não há memória em nós. Mas o mais certo é o nós nunca ter sido. Um nós. Ou um de nós. Um e um. Não dois. Não nós. Apenas me lembro disto. Disseste: amo-te. Depois deste-me um murro nos dentes. E eu fiquei com cicatrizes. Com pontos. Com nós.

* Brad Mehldau (8:39) in ‘The Art of the Trio, Volume 5: Progression’ (Disco 2)

10/24/2005

Don't Let The Sun Catch You Cryin' *















Praga, Jardim, na Ilha de Kampa, 2/9/2005


Finge. Finge que és verde. Finge. Que és de pedra. Não passaste todos estes anos a aprender como se faz? Fingir. Agora já sabes. És verde. És de pedra. Não sentes nada. Como a pedra. O sol apanha-te a curva das orelhas. Ilumina o teu pequeno sinal no nariz. O sol apanha-te. Finge. Que és de pedra. Não sentes. O sol apanha-te a curva das ancas. Os braços. A coluna. E não vergas. És de pedra. Não sentes. Não choras. Finge que não choras. Que o sol jamais te apanhará uma lágrima verde. Só a curva da cintura. Só os fios de pedra dos cabelos. Não olhes para trás. Porque. Já és de pedra. Não chores. De nada adianta. Apanha o sol. Olha em frente. Sossega. Mente. Esquece.

Shirley Horn (5:58) in 'You Won't Forget Me'

10/20/2005

Conference of the Birds*













Pois. Eu sei. As gaivotas abeiram-se das janelas. E gritam. Gostava de gritar assim. Contra o que me apetecesse. Ou contra ti. As pessoas são como pássaros. Se quisermos… gaivotas. Abeiram-se das janelas. Voltam para trás. Descrevem círculos imperfeitos. Tudo começa com uma asa. Devagar. Depois tudo entra em decomposição. Penas. As gaivotas acertam os círculos do voo. As pessoas não. Complicam. Descomplicam. Fazem tudo depressa demais. Não voltam atrás. Ou se voltam trazem sacos cheios de mágoas. Não sabem voar com eles. Nem atirá-los pela janela a que se abeiram as gaivotas. Não quero dizer adeus. Porque não sou capaz. Mas não quero continuar este imperfeito voo. O tempo acabou. Um dia pode ser que conferenciemos. Devagar. Agora não. Doem-me as asas. Doem-me os ossos. Tenho as janelas fechadas. E tu nem sequer pedes desculpa. Por me teres partido as asas e os ossos. Por me teres feito abrir janelas, fechadas, sabendo que haverias de me obrigar a fechá-las outra vez. Por teres voado até aqui. Sem consequências.

* Dave Holland Quartet (com Barry Altschul; Sam Rivers e Anthony Braxton) (4:42) in ‘Conference of the Birds’